O propósito de Deus para sua igreja

A igreja é o instrumento apontado por Deus para a salvação dos
homens. Foi organizada para servir e sua missão é levar o evangelho
ao mundo. Desde o princípio, tem sido plano de Deus que, através
de Sua igreja, seja refletida para o mundo Sua plenitude e sufici-
ência. Aos membros da igreja, a quem Ele chamou das trevas para
Sua maravilhosa luz, compete manifestar Sua glória. A igreja é a
depositária das riquezas da graça de Cristo; e pela igreja será, a seu
tempo, manifesta, mesmo aos “principados e potestades nos Céus”
Efésios 3:10
), a final e ampla demonstração do amor de Deus.
Muitas e maravilhosas são as promessas citadas nas Escrituras
com respeito à igreja. “Porque a Minha casa será chamada casa de
oração para todos os povos”.
Isaías 56:7. “E a elas, e aos lugares
ao redor do Meu outeiro, Eu porei por bênção; e farei descer a
chuva a seu tempo: chuvas de bênção serão” “E lhes levantarei uma
plantação de renome, e nunca mais serão consumidas pela fome na
Terra, nem mais levarão sobre si o opróbrio dos gentios. Saberão,
porém, que Eu, o Senhor seu Deus, estou com elas, e que elas são o
Meu povo, a casa de Israel, diz o Senhor Jeová. Vós, pois, ó ovelhas
Minhas, ovelhas do Meu pasto: homens sois, mas Eu sou o vosso
Deus, diz o Senhor Jeová”.
Ezequiel 34:26, 29-31
.“Vós sois as Minhas testemunhas diz o Senhor, e o Meu servo, a
quem escolhi; para que o saibais, e Me creiais, e entendais que Eu
sou o mesmo, e que antes de Mim deus nenhum se formou, e depois
de Mim nenhum haverá. Eu, Eu sou o Senhor, e fora de Mim não há
Salvador. Eu anunciei, e Eu salvei, e Eu o fiz ouvir, e deus estranho
não houve entre vós, pois vós sois as Minhas testemunhas, diz o
Senhor; Eu sou Deus”.
Isaías 43:10-12
. “Eu o Senhor te chamei em
justiça, e te tomarei pela mão e te guardarei, e te darei por concerto
do povo, e para luz dos gentios; para abrir os olhos dos cegos, para
tirar da prisão os presos, e do cárcere os que jazem em trevas”.
Isaías42:6, 767
“No tempo favorável te ouvi e no dia da salvação te ajudei, e te
guardarei, e te darei por concerto do povo, para restaurares a terra, e
lhe dares em herança as herdades assoladas: para dizeres aos presos:
Saí; e aos que estão em trevas: Aparecei: eles pastarão nos caminhos,
e em todos os lugares altos terão o seu pasto. Nunca terão fome nem
sede, nem a calma nem o sol os afligirá; porque o que Se compadece
[7]
deles os guiará, e os levará mansamente aos mananciais das águas.
E farei de todos os Meus montes um caminho; e as Minhas veredas
serão exaltadas.
“Exultai, ó Céus, e alegra-te tu, Terra, e vós, montes, estalai de
júbilo, porque o Senhor consolou o Seu povo, e dos Seus aflitos Se
compadecerá. Mas Sião diz: Já me desamparou o Senhor, e o Senhor
Se esqueceu de mim. Pode uma mulher esquecer-se tanto de seu
filho que cria, que não se compadeça dele, do filho do seu ventre?
Mas ainda que essa se esquecesse, Eu, todavia, Me não esquecerei
de ti. Eis que nas palmas das Minhas mãos te tenho gravado: os teus
muros estão continuamente perante Mim”.
Isaías 49:8-11, 13-16
.
A igreja é a fortaleza de Deus, Sua cidade de refúgio, que Ele
mantém num mundo revoltado. Qualquer infidelidade da igreja é
traição para com Aquele que comprou a humanidade com o sangue
de Seu unigênito Filho. Pessoas fiéis constituíram, desde o princípio,
a igreja sobre a Terra. Em cada era, teve o Senhor Seus vigias que
deram fiel testemunho à geração em que viveram. Essas sentinelas
apregoaram a mensagem de advertência e, ao serem chamadas para
depor a armadura, outros empreenderam a tarefa. Deus pôs essas
testemunhas em relação de concerto com Ele próprio, unindo a igreja
da Terra à do Céu. Enviou Seus anjos para cuidar de Sua igreja e as
portas do inferno não puderam prevalecer contra Seu povo.
Através de séculos de perseguição, conflito e trevas, Deus tem
amparado Sua igreja. Nenhuma nuvem sobre ela caiu, para a qual
Ele não estivesse preparado; nenhuma força oponente surgiu para
impedir Sua obra, que Ele não houvesse previsto. Tudo sucedeu
como Ele predisse. Ele não deixou Sua igreja ao desamparo, mas
traçou em declarações proféticas o que deveria ocorrer, e aquilo
que Seu Espírito inspirou os profetas a predizerem tem-se realizado.
Todos os Seus propósitos serão cumpridos. Sua lei está vinculada a
Seu trono, e nenhum poder do mal poderá destruí-la. A verdade é
inspirada e guardada por Deus; e ela triunfará sobre toda oposição.
8
Atos dos Apóstolos
Durante séculos de trevas espirituais, a igreja de Deus tem sido
como uma cidade edificada sobre um monte. De século em século,
através de sucessivas gerações, as puras doutrinas do Céu têm sido
desdobradas dentro de seus limites. Fraca e defeituosa como possa
parecer, a igreja é o único objeto sobre que Deus concede em sentido
especial Sua suprema atenção. É o cenário de Sua graça, na qual Se
deleita em revelar Seu poder de transformar corações.
“A que”, perguntava Cristo, “assemelharemos o reino de Deus?
ou com que parábola o representaremos?”
Marcos 4:30
. Ele não
podia empregar os reinos do mundo como uma ilustração. Na socie-
dade, nada achou com que o pudesse comparar. Os reinos da Terra
se regem pela supremacia do poder físico; mas no reino de Cristo
[8]
não existe arma carnal nem instrumento de coerção. Esse reino deve
erguer e enobrecer a humanidade. A igreja de Deus é o recinto de
vida santa, plena de variados dons e dotada com o Espírito Santo.
Os membros devem encontrar sua felicidade na felicidade daqueles
a quem ajudam e abençoam.
Maravilhosa é a obra que o Senhor Se propõe realizar por inter-
médio de Sua igreja, a fim de que Seu nome seja glorificado. Um
quadro dessa obra é dado na visão que teve Ezequiel, do rio de águas
purificadoras: “Estas águas saem para a região oriental, e descem
à campina, e entram no mar; e, sendo levadas ao mar, sararão as
águas. E será que toda a criatura vivente que vier por onde quer
que entrarem estes dois ribeiros, viverá” “E junto do ribeiro, à sua
margem, de uma e de outra banda, subirá toda sorte de árvore que
dá fruto para se comer: não cairá a sua folha, nem perecerá o seu
fruto: nos seus meses produzirá novos frutos, porque as suas águas
saem do santuário; e o seu fruto servirá de alimento e a sua folha de
remédio”.
Ezequiel 47:8-9, 12
.
Desde o início, tem Deus operado por intermédio de Seu povo
a fim de trazer bênçãos ao mundo. Deus fez de José uma fonte de
vida para a antiga nação egípcia. Através de sua integridade, a vida
de todo o povo foi preservada. Por meio de Daniel salvou Deus a
vida de todos os sábios de Babilônia. E esses livramentos são como
lições objetivas. Eles ilustram as bênçãos espirituais oferecidas ao
mundo, pela ligação com o Deus a quem José e Daniel adoravam.
Todos aqueles em cujo coração Cristo habita, cada um que mostre
Seu amor ao mundo, é um cooperador de Deus, para bênção da
O propósito de Deus para sua igreja
9
humanidade. À medida que recebe do Salvador graça para reparti-la
com outros, de seu próprio ser fluem torrentes de vida espiritual.
Deus escolhera Israel para revelar Seu caráter aos homens. Que-
ria que os israelitas fossem fontes de salvação no mundo. A eles
foram entregues os oráculos do Céu, a revelação da vontade de Deus.
Nos primeiros dias de Israel, as nações do mundo, mediante práticas
corruptas tinham perdido o conhecimento de Deus. Eles O haviam
conhecido antes; mas porque “não O glorificaram como Deus, nem
Lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu
coração insensato se obscureceu”.
Romanos 1:21
. Mas em Sua mi-
sericórdia Deus não as riscou da existência. Ele Se propôs dar-lhes
nova oportunidade de se familiarizarem com Ele por intermédio de
Seu povo escolhido.
Mediante os ensinos do sacrifício expiatório, Cristo deveria ser
exaltado perante todas as nações, e todos os que olhassem para Ele
viveriam. Cristo era o fundamento da organização judaica. Todo o
sistema de tipos e símbolos era uma compacta profecia do evangelho,
uma representação em que se continham as promessas de redenção.
Mas o povo de Israel perdeu de vista seus altos privilégios como
representantes de Deus. Esqueceram-se de Deus e deixaram de cum-
prir Sua santa missão. As bênçãos por eles recebidas não produziram
[9]
bênçãos para o mundo. Apropriaram-se de todas as suas vantagens
para glorificação própria. Excluíram-se do mundo para escapar à
tentação. As restrições por Deus impostas na sua associação com
os idólatras como um meio de prevenir-lhes o conformismo com as
práticas pagãs, eles as usaram para levantar um muro de separação
entre si e as demais nações.
Roubaram a Deus no serviço que Ele requeria deles e roubaram
ao próximo na guia religiosa e santo exemplo.
Sacerdotes e príncipes fixaram-se numa rotina de cerimonia-
lismo. Satisfizeram-se com uma religião legal e era-lhes impossível
dar a outros as vivas verdades do Céu. Consideravam suficiente sua
própria justiça e não desejavam a intromissão de um novo elemento
em sua religião. A boa vontade de Deus para com os homens não era
por eles aceita como algo à parte deles próprios, mas a relacionavam
com seus próprios méritos por causa de suas boas obras. A fé que
atua por amor e purifica a vida não achava lugar na união com a
religião dos fariseus, feita de cerimonialismo e injunções humanas.
O preparo dos doze
13
eles deviam ir a todas as nações, levando-lhes a mensagem do amor
do Salvador. Mas não foi senão mais tarde que compreenderam em
toda a plenitude que Deus “de um só fez toda a geração dos homens,
para habitar sobre toda a face da Terra, determinando os tempos já
antes ordenados, e os limites da sua habitação; para que buscassem
ao Senhor, se porventura, tateando, O pudessem achar; ainda que
não está longe de cada um de nós”.
Atos dos Apóstolos 17:26, 27
.
Uma grande diversidade caracterizava esses primeiros discípulos.
Eles deviam ser ensinadores do mundo e representavam amplamente
variados tipos de caráter. Para conduzir com êxito a obra para a qual
haviam sido chamados, esses homens, diferindo em características
naturais e em hábitos de vida, necessitavam chegar à unidade de sen-
timento, pensamento e ação. Essa unidade Cristo tinha por objetivo
conseguir. Para alcançar esse fim procurou mantê-los unidos a Ele.
A responsabilidade que sentia em Sua obra por eles é expressa em
[12]
Sua oração ao Pai: “Para que todos sejam um, como Tu, ó Pai, o és
em Mim, e Eu em Ti; que também eles sejam um em Nós” “Para que
o mundo conheça que Tu Me enviaste a Mim, e que os tens amado a
eles como Me tens amado a Mim”.
João 17:21, 23
. Sua constante
oração por eles era que fossem santificados pela verdade; e Ele orou
com segurança, sabendo que um decreto da parte do Todo-poderoso
fora feito antes que o mundo tivesse vindo à existência. Sabia que o
evangelho do reino devia ser pregado para testemunho a todas as na-
ções; que a verdade fortalecida com a onipotência do Santo Espírito
seria vitoriosa na batalha contra o mal, e que a bandeira sangrenta
um dia haveria de tremular triunfante sobre Seus seguidores.
Ao aproximar-se o término do ministério terrestre de Cristo e
reconhecer Ele que logo precisaria deixar que Seus discípulos levas-
sem avante a obra sem Sua pessoal supervisão, procurou encorajá-los
e prepará-los para o futuro. Não os enganou com falsas esperan-
ças. Como num livro aberto, leu o que deveria acontecer. Sabia que
estava prestes a ser separado deles, para deixá-los como ovelhas
entre lobos. Sabia que haveriam de sofrer perseguição, que seriam
lançados fora das sinagogas e metidos nas prisões. Sabia que, por
testemunharem dEle como o Messias, alguns experimentariam a
morte. E falou-lhes alguma coisa a respeito disso. Referindo-Se ao
futuro deles, foi claro e definido para que, nas aflições que viriam,
14
Atos dos Apóstolos
pudessem lembrar Suas palavras e ser fortalecidos para crer nEle
como o Redentor.
Falou-lhes também palavras de encorajamento e esperança. “Não
se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em Mim.
Na casa de Meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, Eu vo-lo
teria dito: vou preparar-vos lugar. E, se Eu for, e vos preparar lugar,
virei outra vez e vos levarei para Mim mesmo, para que onde Eu
estiver estejais vós também. Mesmo vós sabeis para onde vou, e
conheceis o caminho”.
João 14:1-4
. Por sua causa vim ao mundo;
em seu favor tenho trabalhado. Quando Eu for, ainda trabalharei
ardentemente em seu benefício. Vim ao mundo para Me revelar, de
modo que vocês possam crer. Vou para o Meu Pai e o seu Pai, para
atuar juntamente com Ele em seu favor.
“Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em Mim
também fará as obras que Eu faço, e as fará maiores do que estas;
porque Eu vou para Meu Pai”.
João 14:12
. Não queria Cristo dizer
com isso que os discípulos fariam maiores esforços do que os que
Ele havia feito, mas que sua obra teria maior amplitude. Ele não Se
referiu meramente à operação de milagres, mas a tudo quanto iria
acontecer sob a influência do Espírito Santo. “Mas, quando vier o
Consolador”, disse Ele, “que Eu da parte do Pai vos hei de enviar,
aquele Espírito de verdade que procede do Pai, Ele testificará de
Mim. E vós também testificareis, pois estivestes comigo desde o
princípio”.
João 15:26, 27
.
[13]
Essas palavras foram maravilhosamente cumpridas. Depois da
descida do Espírito Santo, os discípulos sentiram tanto amor por Ele,
e por aqueles por quem Ele morrera, que corações se comoveram
pelas palavras que falaram e pelas orações que fizeram. Falaram
no poder do Espírito; e sob a influência desse poder, milhares se
converteram.
Como representantes de Cristo, os apóstolos deviam fazer de-
cidida impressão sobre o mundo. O fato de serem homens simples
não devia diminuir-lhes a influência, antes incrementá-la; pois a
mente de seus ouvintes devia ser levada deles para o Salvador que,
conquanto invisível, estava ainda operando com eles. O maravilhoso
ensino dos apóstolos, suas palavras de ânimo e confiança, assegura-
riam a todos que não era em seu próprio poder que operavam, mas
no poder de Cristo. Com humildade, declarariam que Aquele que os
56
Atos dos Apóstolos
com quem tinha de tratar; sabia que os assassinos de Cristo em nada
hesitariam a fim de executar seu propósito.
Falou, então, com grande ponderação e calma, dizendo: “Varões
israelitas, acautelai-vos a respeito do que haveis de fazer a estes
homens. Porque antes destes dias levantou-se Teudas, dizendo ser
alguém: a este se ajuntou o número de uns quatrocentos homens;
o qual foi morto, e todos os que lhe deram ouvidos foram disper-
sos e reduzidos a nada. Depois deste levantou-se Judas, o galileu,
nos dias do alistamento, e levou muito povo após si; mas também
este pereceu, e todos os que lhe deram ouvidos foram dispersos. E
agora digo-vos: dai de mão a estes homens, e deixai-os, porque, se
este conselho ou essa obra é de homens, se desfará. Mas, se é de
Deus, não podereis desfazê-la; para que não aconteça serdes também
achados combatendo contra Deus”.
Atos dos Apóstolos 5:35-39
.
Os sacerdotes viram a racionalidade dessas opiniões, e foram
obrigados a concordar com Gamaliel. Contudo, seu preconceito e
ódio dificilmente podiam ser restringidos. Muito relutantemente,
depois de castigar os discípulos, e ordenar-lhes de novo, sob pena
de morte, a não mais pregarem no nome de Jesus, soltaram-nos.
“Retiraram-se pois da presença do conselho, regozijando-se de terem
sido julgados dignos de padecer afronta pelo nome de Jesus. E todos
os dias, no templo e nas casas, não cessavam de ensinar, e de anunciar
a Jesus Cristo”.
Atos dos Apóstolos 5:41, 42
.
Pouco tempo antes de Sua crucifixão, Cristo tinha garantido a
Seus discípulos um legado de paz. “Deixo-vos a paz,” disse Ele, “a
Minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe
o vosso coração, nem se atemorize”.
João 14:27
. Essa paz não é a
paz que se obtém mediante a conformação com o mundo. Cristo
jamais comprou a paz condescendendo com o mal. A paz que Cristo
deixou a Seus discípulos é, antes, interna que externa, e sempre devia
permanecer com Suas testemunhas nas lutas e contendas.
Falando de Si, Cristo disse: “Não cuideis que vim trazer a paz
à Terra; não vim trazer paz, mas espada”.
Mateus 10:34
. Príncipe
da paz, era Ele não obstante causa de divisão. Aquele que veio pro-
clamar alegres novas e promover a esperança e alegria no coração
dos filhos dos homens, abriu uma controvérsia que arde profunda-
mente e desperta intensa paixão no coração humano. E Ele adverte
[47]
Seus seguidores: “No mundo tereis aflições”.
João 16:33
. “Lançarão
Perante o Sinédrio
57
mão de vós, e vos perseguirão, entregando-vos às sinagogas e às
prisões, e conduzindo-vos à presença de reis e presidentes, por amor
do Meu nome” “E até pelos pais, e irmãos, e parentes, e amigos
sereis entregues; e matarão alguns de vós”.
Lucas 21:12, 16
.
Essa profecia tem sido cumprida de modo notável. Toda indig-
nidade, toda injúria, toda crueldade que Satanás podia instigar o
coração humano a imaginar, têm recaído sobre os seguidores de
Jesus. E isso será de novo cumprido; pois o coração carnal está
ainda em inimizade com a lei de Deus, e não se sujeitará a Seus
mandamentos. O mundo não está hoje em maior harmonia com os
princípios de Cristo, do que esteve nos dias dos apóstolos. O mesmo
ódio que motivou o clamor: “Crucifica-O! Crucifica-O!” (
Lucas
23:21
), o mesmo ódio que levou a perseguição aos discípulos, ainda
atua nos filhos da desobediência. O mesmo espírito que, nos séculos
escuros, enviou homens e mulheres à prisão, ao exílio e à morte; que
concebeu as atrozes torturas da inquisição; que planejou e executou
o massacre de São Bartolomeu e acendeu as fogueiras de Smithfield,
está ainda agindo com maligna energia em corações não regenera-
dos. A história da verdade tem sido sempre o relato da luta entre
o direito e o erro. A proclamação do evangelho sempre tem sido
levada avante neste mundo em face de oposição, perigos, perdas e
sofrimentos.
Em que consistia a força daqueles que, no passado, sofreram
perseguição por amor a Cristo? Era a união com Deus, união com o
Espírito Santo, união com Cristo. A acusação e a perseguição têm
separado muitos de seus amigos terrestres, mas nunca do amor de
Cristo. Nunca a pessoa, provada pela tempestade, é mais encareci-
damente amada por seu Salvador do que quando sofre a perseguição
por amor à verdade. “Eu o amarei”, disse Cristo, “e Me manifestarei
a ele”.
João 14:21
. Quando, por causa da verdade, o crente se acha
perante os tribunais terrestres, Cristo Se acha a seu lado. Quando
é encerrado entre as paredes da prisão, Cristo Se lhe manifesta e
com Seu amor lhe anima o coração. Quando sofre a morte por amor
a Cristo, o Salvador lhe diz: Eles podem matar o corpo, mas não
podem matar a alma. “Tende bom ânimo, Eu venci o mundo”.
João
16:33
. “Não temas, porque Eu sou contigo; não te assombres, porque
Eu sou teu Deus: Eu te esforço, e te ajudo, e te sustento com a destra
da Minha justiça”.
Isaías 41:10
.
De perseguidor a discípulo
79
dera testemunho de um Salvador crucificado e ressuscitado, fora
sacrificado com seu consentimento, e que, mais tarde, por seu inter-
médio, muitos outros dignos seguidores de Jesus haviam encontrado
a morte pela perseguição cruel.
O Salvador falara a Saulo por intermédio de Estêvão, cujo claro
raciocínio não pôde ser contraditado. O erudito judeu tinha visto a
face do mártir refletindo a luz da glória de Cristo, sendo sua aparên-
cia “como o rosto de um anjo”.
Atos dos Apóstolos 6:15
. Testemu-
nhara sua clemência pelos inimigos e o perdão que lhes concedera.
Tinha testemunhado também a decidida e até alegre resignação de
muitos de cujo tormento e aflição tinha sido causa. Tinha visto
alguns deporem a própria vida com regozijo, por amor de sua fé.
Todas essas coisas tinham apelado altamente a Saulo, e, às vezes,
se lhe alojara na mente uma quase avassaladora convicção de que
Jesus era o prometido Messias. Nessas ocasiões, ele havia lutado
noites inteiras contra essa convicção, e sempre terminara por manter
a crença de que Jesus não era o Messias, e que Seus discípulos eram
fanáticos iludidos.
Agora, Cristo falara a Saulo com Sua própria voz, dizendo:
“Saulo, Saulo, por que Me persegues?” E a interrogação: “Quem és,
Senhor?” foi respondida pela mesma voz: “Eu sou Jesus, a quem tu
persegues”.
Atos dos Apóstolos 9:4, 5
. Cristo aqui Se identifica com
Seu povo. Perseguindo os seguidores de Jesus, Saulo tinha batalhado
diretamente contra o Senhor do Céu. Em os acusar falsamente, e
falsamente testificar contra eles, havia acusado falsamente a Jesus e
falsamente testificado contra o Salvador do mundo.
Nenhuma dúvida assaltou a mente de Saulo quanto a ser Aquele
que lhe falara Jesus de Nazaré, o tão longamente esperado Messias,
a consolação e redenção de Israel. “E ele, tremendo e atônito”,
perguntou: “Senhor, que queres que faça? E disse-lhe o Senhor:
[65]
Levanta-te, e entra na cidade, e lá te será dito o que te convém fazer”.
Atos dos Apóstolos 9:6
.
Quando se retirou a glória e Saulo se levantou do chão, achou-se
completamente despojado da visão. O brilho da glória de Cristo
fora por demais intenso para seus olhos mortais e, desaparecido
esse brilho, a escuridão da noite invadiu-lhe a visão. Ele creu que
essa cegueira era um castigo divino por sua cruel perseguição aos
seguidores de Jesus. Em terríveis trevas tateava em torno, e seus com-
80
Atos dos Apóstolos
panheiros, em temor e pasmo “guiando-o pela mão, o conduziram a
Damasco”.
Atos dos Apóstolos 9:8
.
Na manhã desse acidentado dia, Saulo tinha-se aproximado de
Damasco com sentimentos de presunção por causa da confiança nele
depositada pelos principais dos sacerdotes. Havia sido confiada a
ele grande responsabilidade. Fora comissionado para promover os
interesses da religião judaica, impedindo, se possível, a disseminação
da nova fé em Damasco. Determinara que sua missão seria coroada
de êxito e, com ávida antecipação, olhava as experiências que o
aguardavam.
Quão diferente do que imaginara foi sua entrada na cidade! Fe-
rido de cegueira, desorientado, torturado pelo remorso, não sabendo
se outros juízos o aguardavam ainda, procurou ali a casa do discípulo
Judas, onde, em solidão, teve ampla oportunidade para refletir e orar.
Saulo “esteve três dias sem ver, e não comeu nem bebeu”.
Atos
dos Apóstolos 9:9
. Esses dias de íntima agonia tiveram para ele
a duração de anos. Vezes sem conta ele recordava, com o espírito
angustiado, a parte que tinha desempenhado no martírio de Estêvão.
Com horror, pensava em sua culpa por se haver deixado contro-
lar pela maldade e preconceito dos sacerdotes e príncipes, mesmo
quando a face de Estêvão fora iluminada pelas radiações do Céu.
Com o espírito triste e quebrantado, reconsiderou as inúmeras vezes
que tinha fechado os olhos e os ouvidos às mais tocantes evidências,
e persistentemente incrementara a perseguição aos crentes em Jesus
de Nazaré.
Esses dias de exame de consciência e humilhação do coração
foram passados em reclusão íntima. Os crentes, tendo sido advertidos
dos propósitos de Saulo em vir a Damasco, temiam estivesse ele
fingindo, para mais facilmente iludi-los; e se mantinham arredios,
recusando-lhe sua simpatia. Ele não desejava apelar aos judeus não
convertidos, aqueles com quem planejara unir-se na perseguição aos
crentes; pois sabia que nem sequer dariam ouvidos a sua história.
Assim, parecia-lhe estar separado de toda a simpatia humana. Sua
única esperança de ajuda estava no misericordioso Deus, e para Ele
apelou com o coração quebrantado.
Durante as longas horas em que Saulo estivera fechado a sós
com Deus, relembrou muitos textos das Escrituras referentes ao
primeiro advento de Cristo. Com a memória aguçada pela convicção
De perseguidor a discípulo
81
de que estava possuído, cuidadosamente seguiu o fio das profecias.
Ao refletir no significado dessas profecias, ficou pasmado ante a
cegueira de entendimento de que estivera possuído, bem como a dos
[66]
judeus em geral, que os levara à rejeição de Jesus como o Messias
prometido. A sua iluminada visão, tudo agora parecia claro. Sabia
que seu anterior preconceito e incredulidade tinham-lhe obscurecido
a percepção espiritual, impedindo-o de discernir em Jesus de Nazaré
o Messias da profecia.
Ao render-se Saulo inteiramente ao convincente poder do Espí-
rito Santo, viu os erros de sua vida e reconheceu a amplitude dos
reclamos da lei de Deus. Aquele que fora um orgulhoso fariseu,
confiante na justificação por suas boas obras, curvou-se, então, pe-
rante Deus com a humildade e simplicidade de uma criancinha,
confessando sua indignidade e pleiteando os méritos de um Salvador
crucificado e ressurgido. Saulo ansiava por entrar em inteira harmo-
nia e comunhão com o Pai e o Filho; e na intensidade de seu desejo
de perdão e aceitação, elevou ferventes súplicas ao trono da graça.
As orações do penitente fariseu não foram em vão. Os mais
secretos pensamentos e emoções de seu coração foram transforma-
dos pela divina graça; e Suas nobres faculdades foram postas em
harmonia com os eternos propósitos de Deus. Cristo e Sua justiça
passaram a representar para Saulo mais que o mundo inteiro.
A conversão de Saulo é notável evidência do miraculoso poder
do Espírito Santo para convencer os homens do pecado. Ele havia
crido que, de fato, Jesus de Nazaré havia desconsiderado a lei de
Deus, ensinando aos Seus discípulos ser a mesma de nenhum valor.
Mas, depois de sua conversão, Saulo tinha reconhecido Jesus de
Nazaré como Aquele que viera ao mundo com o propósito expresso
de defender a lei de Seu Pai. Estava convencido de que Jesus fora o
originador de todo o sistema judaico de sacrifícios. Viu que o tipo da
crucificação tinha encontrado o antítipo; que Jesus havia cumprido
as profecias do Antigo Testamento, concernentes ao Redentor de
Israel.
No relato da conversão de Saulo, encontramos importantes prin-
cípios que devemos sempre ter em mente. Saulo foi levado direta-
mente à presença de Cristo. Foi uma pessoa designada por Cristo
para uma importantíssima obra, alguém que seria “um vaso esco-
lhido” (
Atos dos Apóstolos 9:15
), para Ele; no entanto, o Senhor
82
Atos dos Apóstolos
não lhe disse imediatamente qual era a obra para ele designada.
Embargou-lhe o caminho e convenceu-o do pecado; e quando Saulo
perguntou: “Que queres que faça?” (
Atos dos Apóstolos 9:6
) o Sal-
vador colocou o indagador judeu em contato com Sua igreja, para
que obtivesse o conhecimento da vontade de Deus em relação a ele.
A maravilhosa luz que iluminara as trevas de Saulo era obra
do Senhor; mas havia também um trabalho a ser feito em favor
dele pelos discípulos. Cristo tinha realizado a obra de revelação
e convicção. Agora, o penitente estava em condições de aprender
daqueles a quem o Senhor tinha ordenado que ensinassem a Sua
verdade.
[67]
Enquanto em recolhimento na casa de Judas, Saulo continuava
em oração e súplica, o Senhor apareceu em visão a “certo discípulo”
em Damasco, “chamado Ananias”, dizendo-lhe que Saulo de Tarso
estava orando e necessitava de auxílio. “Levanta-te, e vai à rua
chamada Direita,” disse o mensageiro celestial, “e pergunta em casa
de Judas por um homem de Tarso chamado Saulo; pois eis que ele
está orando; e numa visão ele viu que entrava um homem chamado
Ananias, e punha sobre ele a mão, para que tornasse a ver”.
Atos
dos Apóstolos 9:10-12
.
Ananias mal podia crer nas palavras do anjo; pois a notícia da
tenaz perseguição aos santos em Jerusalém tinha-se espalhado am-
plamente. Atreveu-se a argumentar: “Senhor, a muitos ouvi acerca
deste homem, quantos males tem feito aos Teus santos em Jerusa-
lém; e aqui tem poder dos principais dos sacerdotes para prender
a todos os que invocam o Teu nome” Mas a ordem foi imperativa:
“Vai, porque este é para Mim um vaso escolhido, para levar o Meu
nome diante dos gentios, e dos reis e dos filhos de Israel”.
Atos dos
Apóstolos 9:13-15
.
Obediente à orientação do anjo, Ananias saiu em busca do ho-
mem que ainda pouco antes havia respirado ameaças contra todos
os que criam no nome de Jesus; e colocando as mãos sobre a cabeça
do penitente sofredor, disse: “Irmão Saulo, o Senhor Jesus, que te
apareceu no caminho por onde vinhas, me enviou, para que tornes
a ver e sejas cheio do Espírito Santo. E logo lhe caíram dos olhos
como que umas escamas, e recuperou a vista; e, levantando-se, foi
batizado”.
Atos dos Apóstolos 9:17, 18

Dessa maneira confirmou Jesus a autoridade de Sua igreja orga-
nizada, e pôs Saulo em contato com Seus instrumentos apontados
na Terra. Cristo tinha, agora, uma igreja como Sua representante na
Terra, e a ela pertencia a obra de dirigir os pecadores arrependidos
no caminho da vida.
Muitos têm a idéia de que são responsáveis somente a Cristo
pela luz e experiência que possuem, independentemente de Seus
reconhecidos seguidores na Terra. Jesus é o Amigo dos pecadores,
e Seu coração se confrange por seu infortúnio. Ele possui todo
o poder, tanto no Céu como na Terra; mas respeita os meios por
Ele ordenados para o esclarecimento e salvação das pessoas; dirige
os pecadores para a igreja por Ele feita instrumento de luz para o
mundo.
Quando, em meio ao seu erro e cego preconceito, Saulo recebeu
uma revelação de Cristo, a quem estava perseguindo, foi ele colocado
em comunicação direta com a igreja, a qual é a luz do mundo.
Nesse caso, Ananias representava Cristo, como representa também
os ministros de Cristo sobre a Terra, os quais são indicados para agir
em Seu lugar. No lugar de Cristo, Ananias tocou os olhos de Saulo
para que ele recobrasse a visão. Em lugar de Cristo, colocou suas
mãos sobre ele, e enquanto orava em nome de Cristo, Saulo recebeu
o Espírito Santo. Tudo foi feito no nome e pela autoridade de Cristo.
Cristo é a fonte; a igreja, o canal de comunicação.
[68]
Capítulo 13 — Dias de preparo
Este capítulo é baseado em
Atos dos Apóstolos 9:19-30
.
Depois de seu batismo, Paulo quebrou o jejum, e permaneceu
“alguns dias com os discípulos que estavam em Damasco. E logo
nas sinagogas pregava a Jesus, que Este era o Filho de Deus” Ou-
sadamente, declarou ser Jesus de Nazaré o ansiado Messias, que
“morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; [...] foi sepul-
tado, e [...] ressurgiu ao terceiro dia”, após o que foi visto pelos doze
e pelos outros. “E por derradeiro de todos”, acrescenta Paulo, “me
apareceu também a mim, como a um abortivo”.
1 Coríntios 15:3, 4,
8
. Sua argumentação com respeito às profecias era tão lógica, seus
esforços tão manifestamente acompanhados pelo poder de Deus,
que os judeus ficavam confundidos e incapazes de responder-lhe.
As novas da conversão de Paulo haviam chegado aos judeus
como enorme surpresa. Aquele que havia viajado para Damasco
“com poder e comissão dos principais dos sacerdotes” (
Atos dos
Apóstolos 26:12
), para prender e processar os crentes, estava agora
pregando o evangelho do Salvador crucificado e ressurgido, fortale-
cendo as mãos dos que eram, já, Seus discípulos e continuamente
trazendo novos conversos para a fé a que antes tão amargamente se
opusera.
Paulo fora anteriormente reconhecido como zeloso defensor da
religião judaica, e implacável perseguidor dos seguidores de Jesus.
Corajoso, independente, perseverante, seus talentos e preparo tê-lo-
iam capacitado a servir quase em qualquer atividade. Era capaz de
arrazoar com clareza extraordinária, e por seu fulminante sarcasmo
podia colocar o adversário em posição nada invejável. E agora, os
judeus viam esse jovem extraordinariamente promissor unido com
aqueles a quem antes perseguira, pregando destemidamente no nome
de Jesus.
Um general que tomba em combate está perdido para seu exér-
cito, mas sua morte não acrescenta força ao inimigo. Mas quando
84
Dias de preparo
85
um homem preeminente se une às forças opositoras, não apenas se
perdem seus serviços como ganham decidida vantagem aqueles com
quem ele se une. Saulo de Tarso, em caminho para Damasco, podia
facilmente ter sido fulminado pelo Senhor, e muita força se teria
retirado do poder perseguidor. Mas Deus, em Sua providência, não
apenas poupou a vida de Saulo, mas converteu-o, transferindo assim
um campeão do campo do inimigo para o lado de Cristo. Orador
eloqüente e crítico severo, Paulo, com seu decidido propósito e in-
[69]
quebrantável coragem, possuía as próprias qualificações necessárias
à igreja primitiva.
Enquanto Paulo pregava a Cristo em Damasco, todos os que o
ouviam ficavam admirados, e diziam: “Não é este o que em Jerusa-
lém perseguia os que invocavam este nome, e para isso veio aqui,
para os levar presos aos principais dos sacerdotes?”
Atos dos Após-
tolos 9:21
. Paulo declarava que sua mudança de fé não tinha sido
gerada por impulso ou fanatismo, mas fora resultado de irresistível
evidência. Em sua apresentação do evangelho, ele procurava tornar
claras as profecias relativas à primeira vinda de Cristo. Mostrava ir-
refutavelmente que essas profecias se tinham cumprido literalmente
em Jesus de Nazaré. O fundamento de sua fé era a segura palavra da
profecia.
Enquanto continuava a apelar a seus assombrados ouvintes para
“que se emendassem e se convertessem a Deus, fazendo obras dignas
de arrependimento” (
Atos dos Apóstolos 26:20
), Saulo “se esforçava
muito mais, e confundia os judeus que habitavam em Damasco, pro-
vando que Aquele era o Cristo”.
Atos dos Apóstolos 9:22
. Muitos,
porém, endureceram o coração, recusando-se a atender a sua mensa-
gem; e logo o espanto deles pela sua conversão foi mudado em ódio
intenso, semelhante ao que haviam mostrado para com Jesus.
A oposição tornou-se tão violenta que não foi permitido a Paulo
continuar suas atividades em Damasco. Um mensageiro do Céu
ordenou-lhe retirar-se por algum tempo; e ele foi “para a Arábia”,
onde encontrou um refúgio seguro.
Gálatas 1:17
.
Ali, na solidão do deserto, Paulo teve ampla oportunidade para
sossegado estudo e meditação. Recapitulou calmamente sua experi-
ência passada, possuindo-se de genuíno arrependimento. Buscou a
Deus de todo o coração, não descansando até que tivesse a certeza
de que seu arrependimento fora aceito e seus pecados perdoados.
Exaltando a cruz
141
Viajando através da Síria e Cilícia, onde fortaleciam as igrejas,
Paulo e Silas alcançaram por fim Derbe e Listra, na província de
Licaônia. Foi em Listra que Paulo fora apedrejado, no entanto, vamos
encontrá-lo de novo no cenário onde passara o perigo anterior. Ele
estava ansioso por ver como os que haviam aceitado o evangelho por
meio de seus esforços estavam enfrentando o teste das provações.
Não ficou desapontado; verificou que os crentes listrianos tinham
permanecido firmes em face de violenta oposição.
[113]
Ali, Paulo tornou a encontrar Timóteo, que havia testemunhado
seus sofrimentos ao final de sua primeira visita a Listra, e em cuja
mente a impressão então feita tinha-se aprofundado com o passar
do tempo, até que se convenceu de que era seu dever entregar-
se inteiramente à obra do ministério. Seu coração estava unido
ao coração de Paulo, e ele ansiava compartilhar das atividades do
apóstolo, ajudando na medida das oportunidades.
Silas, companheiro de trabalho de Paulo, era um obreiro experi-
mentado, dotado com o dom de profecia; mas a obra a ser feita era
tão grande que foi necessário preparar mais obreiros para o serviço
ativo. Em Timóteo, Paulo viu alguém que apreciava a santidade da
obra de um pastor; que não se atemorizava ante a perspectiva de
sofrimento e perseguição; que estava pronto a ser ensinado. Todavia,
o apóstolo não se arriscou a tomar a responsabilidade de exercitar
Timóteo, jovem não provado, para o ministério evangélico, sem pri-
meiro certificar-se plenamente quanto a seu caráter e vida passada.
O pai de Timóteo era grego, e a mãe judia. Desde criança, ele
conhecia as Escrituras. A piedade que ele presenciara em sua vida
doméstica era sã e sensata. A confiança de sua mãe e de sua avó
nos sagrados oráculos, lembravam-lhe continuamente as bênçãos
que há em fazer a vontade de Deus. A Palavra de Deus era a regra
pela qual essas duas piedosas mulheres haviam guiado Timóteo. O
poder espiritual das lições que delas recebera conservou-o puro na
linguagem, e incontaminado pelas más influências de que se achava
rodeado. Assim, a instrução recebida através do lar havia cooperado
com Deus em prepará-lo para assumir responsabilidades.
Paulo viu que Timóteo era fiel, firme e leal, e escolheu-o como
companheiro de trabalho e de viagem. Os que haviam ensinado
Timóteo na infância foram recompensados com vê-lo, ao filho de
seu cuidado, ligado em íntima associação com o grande apóstolo.
142
Atos dos Apóstolos
Timóteo era um simples jovem quando foi escolhido por Deus para
ser um ensinador; mas seus princípios tinham sido tão estabelecidos
por sua educação dos primeiros anos, que ele estava apto a ocu-
par seu lugar como auxiliar de Paulo. E embora jovem, levou suas
responsabilidades com humildade cristã.
Como medida acauteladora, Paulo aconselhou prudentemente
a Timóteo a que se circuncidasse — não que Deus o exigisse, mas
a fim de tirar do espírito dos judeus aquilo que poderia servir de
objeção ao ministério de Timóteo. Em sua obra, Paulo devia viajar de
cidade em cidade, em muitas terras, e teria muitas vezes ocasião de
pregar a Cristo em sinagogas judaicas, bem como em outros lugares
de reunião. Viesse a ser sabido que um de seus companheiros de
trabalho era incircunciso, e sua obra seria grandemente entravada
pelo preconceito e fanatismo dos judeus. Em toda parte encontrou o
apóstolo determinada oposição e severa perseguição. Ele desejava
levar a seus irmãos judeus, bem como aos gentios, o conhecimento
do evangelho e, por essa razão buscava ele, tanto quanto estivesse em
[114]
harmonia com a fé, remover cada pretexto de oposição. E conquanto
fizesse essa concessão ao preconceito judaico, cria e ensinava nada
ser a circuncisão ou incircuncisão, mas o evangelho de Cristo —
este era tudo.
Paulo amava a Timóteo, seu “verdadeiro filho na fé”.
1 Timóteo
1:2
. O grande apóstolo muitas vezes puxava pelo discípulo mais
jovem, interrogando-o acerca da história bíblica; e enquanto viaja-
vam de um lugar para outro, ensinava-lhe cuidadosamente a maneira
de trabalhar com êxito. Tanto Paulo como Silas, em todas as suas
relações com Timóteo, procuravam aprofundar a impressão que já
se fizera em seu espírito quanto à natureza sagrada e séria da obra
do ministro do evangelho.
Em sua obra, Timóteo buscava de Paulo constantemente con-
selho e instrução. Não agia por impulso, mas consideradamente e
com calma reflexão, indagando a cada passo: É este o caminho do
Senhor? Nele encontrou o Espírito Santo quem poderia ser moldado
e ajustado como templo para a habitação da divina Presença.
Quando as lições da Bíblia são aplicadas na vida diária, exercem
profunda e duradoura influência sobre o caráter. Timóteo aprendeu e
praticou essas lições. Não tinha talentos particularmente brilhantes;
mas sua obra era valiosa porque ele usava no serviço do Mestre as
Exaltando a cruz
143
habilidades que Deus lhe dera. Seu conhecimento da piedade prática
distinguia-o dos outros crentes, e dava-lhe influência.
Os que trabalham pelas pessoas têm de alcançar um conheci-
mento mais profundo, mais amplo e mais claro de Deus do que pode
ser obtido pelo esforço comum. Têm de aplicar todas as suas ener-
gias na obra do Mestre. Estão empenhados em alta e santa vocação e,
se quiserem obter conversões como recompensa, precisam apegar-se
firmemente a Deus, recebendo diariamente poder e graça da Fonte
de toda a bênção. “Porque a graça de Deus se há manifestado, tra-
zendo salvação a todos os homens, ensinando-nos que, renunciando
à impiedade e às concupiscências mundanas, vivamos neste presente
século sóbria, e justa, e piamente. Aguardando a bem-aventurada
esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Senhor
Jesus Cristo; o qual Se deu a Si mesmo por nós para nos remir de
toda a iniqüidade, e purificar para Si um povo Seu especial, zeloso
de boas obras”.
Tito 2:11-14
.
Antes de iniciarem a penetração de novo território, Paulo e seus
companheiros visitaram as igrejas que haviam sido estabelecidas
na Pisídia e arredores. “E, quando iam passando pelas cidades, lhes
entregavam, para serem observados, os decretos que haviam sido
estabelecidos pelos apóstolos e anciãos em Jerusalém. De sorte que
as igrejas eram confirmadas na fé, e cada dia cresciam em número”.
Atos dos Apóstolos 16:5
.
O apóstolo Paulo sentia profunda responsabilidade por essas
pessoas convertidas sob seu trabalho. Acima de tudo, ansiava que
permanecessem fiéis, “para que no dia de Cristo”, disse ele, “possa
[115]
gloriar-me de não ter corrido nem trabalhado em vão”.
Filipenses
2:16
. Ele estremecia pelo resultado de seu ministério. Sentia que
até sua própria salvação estaria em perigo se falhasse em cumprir
o dever, e se a igreja fracassasse em cooperar com ele na obra da
salvação. Sabia que apenas a pregação não bastava para educar os
crentes para expor a Palavra da vida. Sabia que, mandamento sobre
mandamento, regra sobre regra, um pouco aqui, um pouco ali, eles
precisavam ser ensinados a fazer progresso na obra de Cristo.
É princípio universal que sempre que alguém se recusa a usar
as faculdades que Deus lhe deu, essas faculdades se debilitam e
morrem. A verdade que não é vivida, que não é repartida, perde seu
poder de comunicar vida, sua virtude salutar. Essa era a razão por que
144
Atos dos Apóstolos
o apóstolo temia não ser capaz de apresentar todo homem perfeito
em Cristo. A esperança de Paulo em relação ao Céu diminuía quando
considerava alguma falha de sua parte que pudesse resultar em estar
ele colocando diante da igreja um modelo humano em lugar do
divino. Seu conhecimento, eloqüência, milagres, sua visão das cenas
eternas quando levado ao terceiro Céu — tudo isso perderia o valor
se, por infidelidade em seu trabalho, aqueles por quem ele trabalhou
viessem a ser excluídos da graça de Deus. Assim, de viva voz e por
carta, insistia com todos os que haviam aceitado a Cristo, para que
prosseguissem no caminho que haveria de capacitá-los a tornarem-se
“irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio duma
geração corrompida e perversa, [...] como astros no mundo; retendo
a Palavra da vida”.
Filipenses 2:15, 16
.
Todo verdadeiro pastor sente pesada responsabilidade pelo pro-
gresso espiritual dos crentes entregues a seu cuidado, um profundo
desejo de que sejam cooperadores de Deus. Ele sente que, da fiel exe-
cução da tarefa que Deus lhe entregou depende, em grande medida,
o bem-estar da igreja. Fervorosa e incansavelmente busca inspirar
os crentes com o desejo de salvar pessoas para Cristo, lembrando-se
de que cada acréscimo à igreja representa mais um instrumento para
dar a conhecer o plano de redenção.
Havendo visitado as igrejas da Pisídia e regiões circunvizinhas,
Paulo e Silas, juntamente com Timóteo, deram-se pressa em passar
“pela Frígia e pela província da Galácia” (
Atos dos Apóstolos 16:6
),
onde com grande poder proclamaram as alegres novas da salvação.
Os gálatas eram dados à adoração de ídolos, mas como os apóstolos
lhes pregassem, rejubilaram-se na mensagem que prometia liberta-
ção do cativeiro do pecado. Paulo e seus cooperadores proclamaram
a doutrina da justificação pela fé no sacrifício expiatório de Cristo.
Apresentaram a Cristo como sendo Aquele que, vendo o estado
desesperado da raça caída, veio para redimir homens e mulheres
mediante uma vida de obediência à lei de Deus, e o pagamento da
penalidade da desobediência. E, diante da cruz, muitos que nunca an-
tes haviam conhecido o verdadeiro Deus, começaram a compreender
a magnitude do amor do Pai.
[116]
Assim foram os gálatas ensinados no que respeita às verdades
fundamentais concernentes a “Deus Pai” e a “nosso Senhor Jesus
Cristo, o qual Se deu a Si mesmo por nossos pecados, para nos livrar
Exaltando a cruz
145
do presente século mau, segundo a vontade de Deus nosso Pai”.
Gálatas 1:3, 4
. “Pela pregação da fé”, receberam o Espírito de Deus,
e tornaram-se “filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus”.
Gálatas 3:2,
26
.
A maneira como Paulo viveu entre os gálatas foi tal que ele pôde
afirmar mas tarde: “Rogo-vos que sejais como eu”.
Gálatas 4:12
.
Seus lábios tinham sido tocados com a brasa viva do altar, e ele fora
habilitado a sobrepor-se às fraquezas do corpo e a apresentar Jesus
como a única esperança do pecador. Os que o ouviam sabiam que
ele havia estado com Jesus. Assistido com o poder do alto, estava
capacitado a comparar as coisas espirituais com as espirituais e a
demolir as fortalezas de Satanás. Corações eram quebrantados ao
apresentar ele o amor de Deus como revelado no sacrifício de Seu
único Filho, e muitos eram levados a perguntar: Que devo fazer para
salvar-me?
Esse método de apresentar o evangelho caracterizou o trabalho
do apóstolo através de seu ministério entre os gentios. Conservava
sempre diante deles a cruz do Calvário. “Não nos pregamos a nós
mesmos”, declarou ele depois de anos em sua experiência, “mas
a Cristo Jesus, o Senhor; e nós mesmos somos vossos servos por
amor de Jesus. Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse
a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação
do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo”.
2
Coríntios 4:5, 6
.
Os consagrados mensageiros que nos primeiros dias do cristia-
nismo levaram as alegres novas da salvação a um mundo a perecer,
não permitiam que pensamentos de exaltação própria viessem empa-
nar sua apresentação de Cristo, e Este crucificado. Não cobiçavam
nem autoridade nem preeminência. Ocultando-se no Salvador, exal-
tavam o grande plano da salvação e a vida de Cristo, o Autor e
Consumador deste plano. Cristo, o mesmo ontem, hoje e eterna-
mente, era o seu insistente ensino.
Se os que hoje estão ensinando a Palavra de Deus, exaltassem
a cruz de Cristo mais e mais, haveria muito maior sucesso em seu
ministério. Se os pecadores forem levados a contemplar com fervor
a cruz, se alcançarem visão ampla do Salvador crucificado, reco-
nhecerão a profundeza da compaixão de Deus e a malignidade do
pecado.
Corinto
175
lançada. Fortalecido e animado, continuou a trabalhar ali, com zelo
e perseverança.
[139]
Os esforços do apóstolo não estavam restringidos à pregação pú-
blica; muitos havia que não poderiam ser alcançados dessa maneira.
Ele gastou muito tempo no trabalho de casa em casa, prevalecendo-
se assim das relações familiares do círculo doméstico. Visitava os
enfermos e tristes, confortava os aflitos, animava os oprimidos. Em
tudo o que dizia e fazia engrandecia o nome de Jesus. Trabalhava
assim “em fraqueza, e em temor, e em grande tremor”.
1 Coríntios
2:3
. Ele tremia ao pensamento de que seus ensinos pudessem revelar
mais o humano que o divino.
“Falamos sabedoria entre os perfeitos”, declarou Paulo depois,
“não porém a sabedoria deste mundo, nem dos príncipes deste
mundo, que se aniquilam; mas falamos a sabedoria de Deus, oculta
em mistério, a qual Deus ordenou antes dos séculos para nossa gló-
ria; a qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu, porque, se
a conhecessem, nunca crucificariam ao Senhor da glória. Mas, como
está escrito: “As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e
não subiram ao coração do homem são as que Deus preparou para
os que O amam”.
1 Coríntios 2:9
. Mas Deus no-las revelou pelo
Seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as
profundezas de Deus. Por que, qual dos homens sabe as coisas do
homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também
ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus.
“Mas nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito
que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos
é dado gratuitamente por Deus. As quais também falamos, não
com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito
Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais”.
1 Coríntios 2:6-13
.
Paulo reconheceu que sua suficiência não estava em si próprio,
mas na presença do Espírito Santo, cuja benigna influência enchia-
lhe o coração trazendo cada pensamento em sujeição a Cristo. Ele
falava de si como “trazendo sempre por toda a parte a mortificação
do Senhor Jesus no [...] corpo, para que a vida de Jesus se manifeste
também em nossos corpos”.
2 Coríntios 4:10
. Nos ensinos do após-
tolo, Cristo era a figura central. “E vivo”, declarou ele, “não mais eu,
176
Atos dos Apóstolos
mas Cristo vive em mim”.
Gálatas 2:20
. O eu fora apagado; Cristo
foi revelado e exaltado.
Paulo era um orador eloqüente. Antes de sua conversão havia
ele muitas vezes procurado impressionar seus ouvintes com rasgos
de oratória. Mas agora, pusera tudo isso de lado. Em vez de se
demorar em descrições poéticas e fantasiosas representações que
poderiam lisonjear os sentidos e alimentar a imaginação, mas que
não encontrariam eco na experiência diária, buscava ele, pelo uso
de linguagem simples, convencer os corações com as verdades de
importância vital. Representações fantasiosas da verdade podem pro-
vocar um êxtase dos sentidos, mas não raro, verdades apresentadas
desta maneira não suprem o alimento necessário ao fortalecimento e
robustecimento do crente para as batalhas da vida. As necessidades
[140]
imediatas, as provas presentes das pessoas em conflito, devem ser
enfrentadas com instrução prática e sadia com base nos princípios
fundamentais do cristianismo.
Os esforços de Paulo em Corinto não ficaram sem fruto. Muitos
abandonaram a adoração dos ídolos para servirem ao Deus vivo, e
uma grande igreja se alistou sob a bandeira de Cristo. Alguns foram
salvos dentre os mais devassos gentios e tornaram-se monumentos
da misericórdia de Deus e da eficácia do sangue de Cristo para
limpar do pecado.
O crescente sucesso que teve Paulo em apresentar a Cristo des-
pertou a mais determinada oposição da parte dos judeus incrédu-
los. Levantaram-se “concordemente contra Paulo, e o levaram ao
tribunal” de Gálio, então procônsul da Acaia. Esperavam que as
autoridades, como em ocasiões anteriores, se poriam ao lado deles;
e vociferando irados, apresentaram sua acusação contra o apóstolo:
“Este persuade os homens a servir a Deus contra a lei”.
Atos dos
Apóstolos 18:12, 13
.
A religião judaica estava sob a proteção do poder romano; e os
acusadores de Paulo pensavam que, se pudessem aplicar-lhe a pecha
de violador das leis de sua religião, provavelmente ele lhes seria
entregue para julgamento e sentença. Assim esperavam conseguir
a sua morte. Mas Gálio era um homem de integridade e recusou
tornar-se instrumento da inveja e da intriga dos judeus. Aborrecido
com sua hipocrisia e justiça própria, não tomou conhecimento da
acusação. Como Paulo se preparasse para falar em defesa própria,
Corinto
177
Gálio lhe disse não ser necessário. Então, voltando-se para os irados
acusadores, disse: “Se houvesse, ó judeus, algum agravo ou crime
enorme, com razão vos sofreria, mas, se a questão é de palavras, e
de nomes, e da lei que entre vós há, vede-o vós mesmos; porque eu
não quero ser juiz dessas coisas. E expulsou-os do tribunal”.
Atos
dos Apóstolos 18:14-16
.
Tanto judeus como gregos haviam ansiosamente esperado pela
decisão de Gálio; e sua imediata rejeição do caso, como sendo desti-
tuído de qualquer interesse público, foi o sinal de retirada dos judeus,
mal-sucedidos e irados. A decidida atitude do procônsul abriu os
olhos à vociferante multidão que estivera a incitar os judeus. Pela
primeira vez durante os trabalhos de Paulo na Europa, a multidão
tomou o seu partido. Diante das próprias vistas do procônsul, e sem
interferência de sua parte, acometeram violentamente contra o mais
preeminente dos acusadores do apóstolo. “Então todos agarraram
Sóstenes principal da sinagoga, e o feriram diante do tribunal; e a
Gálio nada destas coisas o incomodava”.
Atos dos Apóstolos 18:17
.
Assim obtivera o cristianismo assinalada vitória.
Paulo, depois disso, permaneceu “ainda ali muitos dias” Tivesse
o apóstolo sido a esse tempo obrigado a deixar Corinto, e os con-
versos à fé de Jesus teriam sido colocados em perigosa posição. Os
judeus ter-se-iam empenhado em aproveitar a vantagem obtida, até
mesmo à exterminação do cristianismo naquela região.
[141]
As cartas aos tessalonicenses
183
respeito e a consideração devidos aos que haviam sido escolhidos
para ocupar os cargos de autoridade na igreja.
Em sua ansiedade para que os crentes de Tessalônica andassem
no temor de Deus, o apóstolo suplicava-lhes que revelassem na
vida diária a piedade prática. “Finalmente, irmãos,” escreveu, “vos
rogamos e exortamos no Senhor Jesus que, assim como recebestes
de nós, de que maneira convém andar e agradar a Deus, assim andai,
para que continueis a progredir cada vez mais; porque vós bem
sabeis que mandamentos vos temos dado pelo Senhor Jesus. Porque
esta é a vontade de Deus, a vossa santificação: que vos abstenhais
da prostituição”.
1 Tessalonicenses 4:13
. “Porque não nos chamou
Deus para a imundícia, mas para a santificação”.
1 Tessalonicenses
4:7
.
O apóstolo [Paulo] sentia-se responsável em grande medida pelo
bem-estar espiritual dos que se convertiam por seu trabalho. Seu
desejo era que crescessem no conhecimento do único verdadeiro
Deus, e de Jesus Cristo, a quem Ele enviou. Não raro, em seu mi-
nistério, reunia-se com pequenos grupos de homens e mulheres que
amavam a Jesus, inclinando-se com eles em oração, pedindo a Deus
para lhes ensinar como se manter em íntima comunhão com Ele.
Muitas vezes, tomava conselho com eles sobre os melhores métodos
de dar a outros a luz da verdade do evangelho. Muitas vezes, quando
separados daqueles por quem assim havia trabalhado, suplicava a
Deus para que os guardasse do mal, e os ajudasse a se manterem
como missionários ativos e fervorosos.
Uma das mais fortes evidências da verdadeira conversão é o amor
a Deus e ao homem. Os que aceitam a Jesus como seu Redentor, têm
amor sincero e profundo por outros de fé semelhantemente preciosa.
Assim foi com os crentes de Tessalônica. “Quanto, porém, à caridade
fraternal”, escreveu o apóstolo, “não necessitais de que vos escreva,
visto que vós mesmos estais instruídos por Deus que vos ameis uns
aos outros. Porque também já assim o fazeis para com todos os
irmãos que estão por toda a Macedônia. Exortamo-vos, porém, a
que ainda nisto abundeis cada vez mais, e procureis viver quietos, e
tratar dos vossos próprios negócios, e trabalhar com vossas próprias
mãos, como já vo-lo temos mandado; para que andeis honestamente
para com os que estão de fora, e não necessiteis de coisa alguma”.
1
Tessalonicenses 4:9-12
.
196
Atos dos Apóstolos
não tirou vantagem da preferência a ele mostrada, nem a encorajou,
mas apressadamente deixou o campo da contenda. Quando mais
tarde Paulo insistiu com ele para que tornasse a visitar Corinto, ele
declinou, e não voltou a trabalhar ali por muito tempo, até que a
igreja tivesse alcançado melhor estado espiritual.
[156]
Capítulo 27 — Éfeso
Este capítulo é baseado em
Atos dos Apóstolos 19:1-20
.
Enquanto Apolo pregava em Corinto, Paulo cumpria sua pro-
messa de voltar a Éfeso. Havia feito uma rápida visita a Jerusalém
e gastara algum tempo em Antioquia, cenário de seus primeiros
trabalhos. Daí viajou através da Ásia Menor, “sucessivamente pela
província da Galácia e da Frígia” (
Atos dos Apóstolos 18:23
), visi-
tando as igrejas que ele próprio estabelecera e fortalecendo a fé dos
crentes.
No tempo dos apóstolos, a parte oeste da Ásia Menor era co-
nhecida como a província romana da Ásia. Éfeso, a capital, era um
grande centro comercial. Seu porto estava coalhado de embarcações
e suas ruas apinhadas de pessoas de todos os países. Como Corinto,
Éfeso apresentava um campo promissor para o trabalho missionário.
Os judeus, então amplamente dispersos por todas as terras civi-
lizadas, estavam geralmente expectantes pelo advento do Messias.
Quando João Batista estava pregando, muitos, em suas visitas a Je-
rusalém por ocasião das festas anuais, haviam ido às barrancas do
Jordão para ouvi-lo. Ali ouviram eles ser Jesus proclamado como
o Prometido, e tinham levado as novas a todas as partes do mundo.
Dessa maneira, a providência havia preparado o caminho para o
trabalho dos apóstolos.
Chegando a Éfeso, Paulo encontrou doze crentes que, como
Apolo, tinham sido discípulos de João Batista e como ele alcan-
çado algum conhecimento da missão de Cristo. Eles não tinham a
habilidade de Apolo, mas com a mesma sinceridade e fé estavam
procurando espalhar o conhecimento que possuíam.
Esses irmãos nada sabiam da missão do Espírito Santo. Quando
interrogados por Paulo se haviam recebido o Espírito Santo, respon-
deram: “Nós nem ainda ouvimos que haja Espírito Santo” “Em que
sois batizados então?” interrogou Paulo, e eles responderam: “No
batismo de João”.
Atos dos Apóstolos 19:2, 3
.
197
198
Atos dos Apóstolos
Então, o apóstolo expôs perante eles as grandes verdades que
são o fundamento da esperança do cristão. Falou-lhes da vida de
Cristo na Terra, e de Sua cruel morte de vergonha. Contou-lhes
como o Senhor da vida quebrara os grilhões da tumba e ressurgira
triunfante da morte. Repetiu as palavras da comissão do Salvador
aos discípulos: “É-Me dado todo o poder no Céu e na Terra. Portanto
ide, e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do
Filho e do Espírito Santo”.
Mateus 28:18, 19
. Falou-lhes também da
[157]
promessa de Cristo de enviar o Consolador, por cujo poder grandes
sinais e maravilhas seriam feitos, e contou-lhes quão gloriosamente
havia essa promessa sido cumprida no dia de Pentecostes.
Com profundo interesse e grata alegria os irmãos atentaram para
as palavras de Paulo. Pela fé aprenderam a maravilhosa verdade do
sacrifício expiatório de Cristo, e receberam-nO como seu Redentor.
Foram, então, batizados em nome de Jesus; “e, impondo-lhes Paulo
as mãos” (
Atos dos Apóstolos 19:6
), receberam também o batismo
do Espírito Santo que os capacitou a falar as línguas de outras nações
e a profetizar. Dessa forma estavam habilitados a trabalhar como
missionários em Éfeso e circunvizinhanças, e também a sair para
proclamar o evangelho na Ásia Menor.
Foi por nutrir um espírito humilde e dócil que esses homens
alcançaram a experiência que os capacitava a sair como obreiros
para o campo da seara. Seu exemplo oferece aos cristãos uma lição
de grande valor. Há muitos que fazem apenas pequeno progresso na
vida religiosa porque são presunçosos demais para ocupar a posição
de aprendizes. Sentem-se satisfeitos com o conhecimento superficial
da Palavra de Deus. Não desejam mudar sua fé ou obras, e não
fazem, por conseguinte, qualquer esforço para obter maior luz.
Se os seguidores de Cristo fossem fervorosos na busca da sabedo-
ria, seriam levados aos ricos campos da verdade, ainda inteiramente
desconhecidos para eles. Aquele que se entregar inteiramente a Deus,
será guiado pela mão divina. Poderá ser humilde e aparentemente
não dotado de dons; contudo, se com coração amante e confiante
obedecer a toda manifestação da vontade de Deus, suas faculdades
serão purificadas, enobrecidas, revigoradas e aumentada a sua capa-
cidade. Ao serem por ele entesouradas as lições de divina sabedoria,
um sagrado encargo ser-lhe-á confiado; será capacitado a fazer de
sua vida uma honra para Deus e uma bênção para o mundo. “A
Éfeso
199
exposição das Tuas palavras dá luz; dá entendimento aos símplices”.
Salmos 119:130
.
Há muitos hoje em dia tão ignorantes da obra do Espírito Santo
sobre o coração quanto o eram os crentes de Éfeso; não há, entre-
tanto, verdade mais claramente ensinada na Palavra de Deus. Pro-
fetas e apóstolos têm-se demorado sobre este tema. Cristo mesmo
chama nossa atenção para o crescimento do mundo vegetal, como
uma ilustração da operação de Seu Espírito para manter a vida espi-
ritual. A seiva da vinha, subindo da raiz, é difundida para os ramos,
promovendo o crescimento e produzindo flores e frutos. Assim o
poder vitalizante do Espírito Santo, que emana do Salvador, permeia
a vida, renova os motivos e afeições e leva os próprios pensamentos à
obediência da vontade de Deus, capacitando o que recebe a produzir
os preciosos frutos de obras santas.
O Autor dessa vida espiritual é invisível, e o método exato pelo
qual é essa vida repartida e mantida está além da capacidade da
filosofia humana explicar. Todavia, as operações do Espírito estão
[158]
sempre em harmonia com a Palavra escrita. Como sucede no mundo
natural, assim também se dá no espiritual. A vida natural é preser-
vada a todo momento pelo divino poder; todavia não é sustentada
por um milagre direto, mas mediante o uso de bênçãos colocadas ao
nosso alcance. De igual forma é a vida espiritual sustentada pelo uso
dos meios supridos pela Providência. Se o seguidor de Cristo quiser
crescer até chegar “a varão perfeito, à medida da estatura completa
de Cristo” (
Efésios 4:13
), precisa comer do pão da vida e beber da
água da salvação. Precisa vigiar, orar e trabalhar, dando em todas as
coisas atenção às instruções de Deus em Sua Palavra.
Há ainda para nós outras lições na experiência daqueles con-
versos judeus. Quando receberam o batismo das mãos de João, não
compreenderam completamente a missão de Jesus como Aquele
que leva o pecado. Mantinham sérios erros. Mas com mais clara
luz, alegremente aceitaram a Cristo como seu Redentor, e com esse
passo de progresso veio uma mudança em suas obrigações. Ao rece-
berem uma fé mais pura, houve uma correspondente mudança em
sua vida. Como sinal dessa mudança, e em reconhecimento de sua
fé em Cristo, foram rebatizados no nome de Jesus.
Conforme seu costume, Paulo iniciou sua obra em Éfeso pre-
gando na sinagoga dos judeus. Aí continuou trabalhando por três
200
Atos dos Apóstolos
meses, “disputando e persuadindo-os acerca do reino de Deus” A
princípio, encontrou recepção favorável; mas como nos outros cam-
pos, logo surgiu violenta oposição. “Mas, como alguns deles se
endurecessem e não obedecessem, falando mal do Caminho perante
a multidão” (
Atos dos Apóstolos 19:8, 9
), e como persistissem em
sua rejeição do evangelho, o apóstolo cessou de pregar na sinagoga.
O Espírito de Deus operara em Paulo e por meio dele, em seus
trabalhos em favor de seus compatriotas. Suficiente prova fora apre-
sentada para convencer a todos os que sinceramente desejassem
conhecer a verdade. Muitos, porém, permitiram que os dominassem
o preconceito e a incredulidade, e recusaram submeter-se à mais
decisiva evidência. Temendo que a fé dos crentes corresse perigo
pela contínua associação com esses oponentes da verdade, Paulo
se separou deles e reuniu os discípulos num grupo distinto, conti-
nuando suas instruções públicas na escola de Tirano, professor de
algum destaque.
Paulo viu que “uma porta grande e eficaz” se lhe abria, embora
houvesse “muitos adversários”.
1 Coríntios 16:9
. Éfeso não era
somente a mais magnificente, como também a mais corrupta das
cidades da Ásia. A superstição e os prazeres sensuais mantinham
domínio sobre sua fervilhante população. À sombra de seus templos
encontravam guarida os criminosos de toda espécie, e floresciam os
mais degradantes vícios.
Éfeso era o centro popular da adoração de Diana. A fama do
magnificente templo da “Diana dos efésios”, estendia-se através de
toda a Ásia e do mundo. Seu insuperável esplendor tornava-o o orgu-
lho não apenas da cidade, mas da nação. Declarava a tradição haver
[159]
o ídolo caído do céu dentro do templo. Sobre ele estavam escritos
caracteres simbólicos, dos quais se dizia que possuíam grande poder.
Livros haviam sido escritos pelos efésios para explicar o significado
e o uso desses símbolos.
Entre os que estudavam com atenção esses custosos livros, es-
tavam muitos mágicos que exerciam poderosa influência sobre a
mente dos supersticiosos adoradores da imagem no templo.
Ao apóstolo Paulo, em suas atividades em Éfeso, foi dada espe-
cial demonstração do favor divino. O poder de Deus acompanhava
seus esforços, e muitos eram curados de males físicos. “E Deus
pelas mãos de Paulo fazia maravilhas extraordinárias. De sorte que
Éfeso
201
até os lenços e aventais se levavam do seu corpo aos enfermos,
e as enfermidades fugiam deles, e os espíritos malignos saíam”.
Atos dos Apóstolos 19:11, 12
. Essas manifestações de poder sobre-
natural eram tão mais poderosas que as que já haviam sido antes
testemunhadas em Éfeso, e de tal caráter que as não podiam imitar
os habilidosos truques ou encantamentos de feiticeiros. Ao serem
esses milagres operados no nome de Jesus de Nazaré, tinha o povo
oportunidade de ver que o Deus do Céu era mais poderoso que os
mágicos adoradores da deusa Diana. Assim o Senhor exaltava Seu
servo, mesmo diante dos idólatras, incomparavelmente acima do
mais poderoso e favorecido dos mágicos.
Mas Aquele a quem estão sujeitos todos os espíritos do mal, e
sobre os quais dera a Seus servos autoridade, estava para levar maior
vergonha e ruína sobre os que desprezavam e profanavam Seu santo
nome. A feitiçaria havia sido proibida pela lei de Moisés, sob pena
de morte, embora de tempos em tempos houvesse sido praticada
secretamente por judeus apostatados. Ao tempo da visita de Paulo a
Éfeso, havia na cidade “alguns dos exorcistas judeus ambulantes”,
os quais vendo as maravilhas por ele operadas, “tentavam invocar
o nome do Senhor Jesus sobre os que tinham espíritos malignos”
Uma tentativa foi feita por “sete filhos de Ceva, judeu, principal
dos sacerdotes” Encontrando um homem possesso de demônio,
disseram-lhe: “Esconjuro-vos por Jesus a quem Paulo prega” Porém,
“o espírito maligno, disse: Conheço a Jesus, e bem sei quem é Paulo;
mas vós quem sois? E, saltando neles o homem que tinha o espírito
maligno, e assenhoreando-se de dois, pôde mais do que eles; de
tal maneira que, nus e feridos, fugiram daquela casa”.
Atos dos
Apóstolos 19:13-16
.
Foi dada assim prova insofismável da santidade do nome de
Cristo, e do perigo que incorreriam os que invocassem esse nome
sem fé na divindade da missão do Salvador. “E caiu temor sobre
todos eles, e o nome do Senhor Jesus era engrandecido”.
Atos dos
Apóstolos 19:17
.
Fatos que haviam sido previamente encobertos foram então tra-
zidos à luz. Ao aceitarem o cristianismo, alguns crentes não haviam
renunciado inteiramente as suas superstições. Ainda continuaram
em certa medida a praticar a magia. Agora, convictos de seu erro,
“muitos dos que tinham crido vinham, confessando e publicando
[160]
202
Atos dos Apóstolos
os seus feitos”.
Atos dos Apóstolos 19:18
. A boa obra se estendeu
mesmo a alguns dos próprios feiticeiros; e “muitos dos que seguiam
artes mágicas trouxeram os seus livros e os queimaram na presença
de todos e, feita a conta do seu preço, acharam que montavam a
cinqüenta mil peças de prata. Assim a Palavra do Senhor crescia
poderosamente e prevalecia”.
Atos dos Apóstolos 19:19, 20
.
Queimando seus livros sobre magia, os conversos efésios mos-
travam que aquilo em que antes se deleitavam abominavam agora.
Foi por praticarem artes mágicas, e por meio delas, que haviam es-
pecialmente ofendido a Deus e posto em perigo sua salvação; e foi
contra as artes mágicas que mostraram tal indignação. Assim deram
prova de verdadeira conversão.
Esses tratados de adivinhação continham regras e formas de
comunicação com os espíritos do mal. Eram os regulamentos da
adoração de Satanás — regras para lhe solicitar auxílio e obter dele
informações. Retendo esses livros os discípulos se estariam expondo
à tentação; vendendo-os teriam colocado a tentação no caminho
de outros. Haviam renunciado ao reino das trevas, e para destruir
seu poder não hesitaram ante qualquer sacrifício. Triunfou assim a
verdade sobre o preconceito dos homens e seu amor ao dinheiro.
Por essa manifestação do poder de Cristo, foi ganha poderosa
vitória para o cristianismo na própria fortaleza da superstição. A
influência do evento espalhou-se até mais amplamente do que Paulo
imaginava. De Éfeso, as novas circularam por vasta extensão, e
forte impulso foi dado à causa de Cristo. Muito tempo depois de
haver o apóstolo terminado sua carreira, estas cenas ainda viviam
na memória do povo e eram um meio de ganhar conversos para o
evangelho.
Supõe-se lisonjeiramente que as superstições pagãs tenham de-
saparecido dos locais mais civilizados em nossos dias. Mas a Palavra
de Deus e o severo testemunho dos fatos declaram que a feitiçaria
é praticada neste século tanto quanto o foi nos velhos tempos da
magia. O antigo sistema de magia é, na realidade, o mesmo agora
conhecido como espiritualismo. Satanás está encontrando acesso a
milhares de mentes por apresentar-se sob o disfarce de amigos já
falecidos. As Escrituras declaram que “os mortos não sabem coisa
nenhuma”.
Eclesiastes 9:5
. Seus pensamentos, amor e ódio já pere-
ceram. Os mortos não mantêm comunhão com os vivos. Mas seguro
de sua antiga astúcia, Satanás emprega esse engano para obter o
controle das mentes.
Através do espiritualismo, muitos enfermos, desolados, curiosos
se estão comunicando com os espíritos do mal. Todos os que se
aventuram a isso estão pisando solo perigoso. A Palavra da verdade
declara a maneira como Deus os considera. Nos tempos antigos,
Ele pronunciou um severo juízo contra um rei que havia buscado
conselho de um oráculo pagão: “Porventura não há Deus em Israel,
para irdes consultar a Baal-Zebube, deus de Ecrom? E por isso assim
[161]
diz o Senhor: Da cama, a que subiste, não descerás, mas sem falta
morrerás”.
2 Reis 1:3, 4
.
Os mágicos dos tempos pagãos têm seu correspondente nos
médiuns espiritistas, nos videntes e nos cartomantes de hoje. As
vozes misteriosas que falaram em En-Dor e em Éfeso ainda estão
por suas palavras mentirosas desviando os filhos dos homens. Se
fosse erguido o véu que está diante de nossos olhos, veríamos anjos
maus empregando todas as suas artes para enganar e destruir. Onde
quer que uma influência esteja afastando de Deus os homens, ali
está Satanás exercendo seu poder de feitiçaria. Quando os homens
se rendem a sua influência, antes de se darem conta, a mente está
desviada e o espírito poluído. A admoestação do apóstolo à igreja de
Éfeso tem de ser ouvida pelo povo de Deus hoje: “E não comuniqueis
com as obras infrutuosas das trevas, mas antes condenai-as”.
Efésios
5:11
.
[162]
Capítulo 28 — Dias de lutas e de provas
Este capítulo é baseado em
Atos dos Apóstolos 19:21-41
;
20:1
.
Por mais de três anos, Éfeso foi o centro do trabalho de Paulo.
Uma florescente igreja foi estabelecida ali, e dessa cidade o evan-
gelho se espalhou através da província da Ásia, tanto entre judeus
como entre gentios.
O apóstolo estivera planejando por algum tempo outra viagem
missionária. Ele “propôs, em espírito, ir a Jerusalém, passando pela
Macedônia e pela Acaia, dizendo: Depois que houver estado ali,
importa-me ver também Roma” Em harmonia com esse plano, en-
viou “à Macedônia dois daqueles que o serviam, Timóteo e Erasto”;
mas sentindo que a causa em Éfeso ainda requeria sua presença, deci-
diu permanecer até depois do Pentecostes. Logo, entretanto, ocorreu
um acontecimento que apressou sua partida.
Atos dos Apóstolos
19:21, 22
.
Uma vez ao ano, eram realizadas em Éfeso cerimônias especiais
em honra da deusa Diana. Estas atraíam grande número de pessoas
de todas as partes da província. Durante esse período, festividades
eram conduzidas com a maior pompa e esplendor.
Essa ocasião de gala era um tempo de prova para os que haviam
recentemente aceitado a fé. O grupo de crentes que se reunia na
escola de Tirano estava em evidente desarmonia com o coro festivo,
e o ridículo, zombaria e insulto eram-lhes livremente atirados. Os
trabalhos de Paulo haviam produzido sobre o culto pagão um golpe
de morte, em conseqüência do que houve uma sensível queda na
assistência à festividade nacional, e no entusiasmo dos adorado-
res. A influência dos seus ensinos alcançava muito além dos atuais
conversos à fé. Muitos que não tinham abraçado abertamente as
novas doutrinas, tornaram-se esclarecidos bastante para perder toda
a confiança em seus deuses pagãos.
Existia ainda outra causa de descontentamento. Um extenso e
lucrativo negócio havia-se desenvolvido em Éfeso pela manufatura e
204
Dias de lutas e de provas
205
venda de nichos e imagens modelados segundo o templo e a imagem
de Diana. Os que estavam empenhados nessa indústria e comércio
sentiram que seus lucros estavam diminuindo, e foram unânimes em
atribuir aos trabalhos de Paulo a prejudicial mudança.
Demétrio, fabricante de nichos de prata, convocando uma reu-
nião dos artífices, disse-lhes: “Varões, vós bem sabeis que deste
ofício temos a nossa prosperidade; e bem vedes e ouvis que não só
em Éfeso, mas até quase toda a Ásia, este Paulo tem convencido e
afastado uma grande multidão, dizendo que não são deuses os que
[163]
se fazem com as mãos. E não somente há o perigo de que a nossa
profissão caia em descrédito, mas também de que o próprio templo
da grande deusa Diana seja estimado em nada, vindo a majestade
daquela que toda a Ásia e o mundo veneram a ser destruída” Essas
palavras despertaram as paixões do povo. “Encheram-se de ira e cla-
maram, dizendo: Grande é a Diana dos efésios”.
Atos dos Apóstolos
19:25-28
.
A notícia desse discurso circulou rapidamente. “Encheu-se de
confusão toda a cidade” Saíram em busca de Paulo mas o apóstolo
não foi encontrado. Seus irmãos, recebendo um aviso de perigo,
tinham-no levado às pressas para fora do lugar. Anjos de Deus
haviam sido enviados para guardar o apóstolo; ainda não havia
chegado seu tempo para sofrer a morte de mártir.
Não conseguindo encontrar o alvo de sua ira, a turba apanhou “a
Gaio e a Aristarco, macedônios, companheiros de Paulo na viagem”;
e com eles “unânimes correram ao teatro”.
Atos dos Apóstolos
19:29
.
O local do esconderijo de Paulo não era muito distante, e ele logo
soube do perigo de seus amados irmãos. Esquecendo sua própria
segurança, quis ir imediatamente ao teatro para falar aos amotinados.
Mas “não lho permitiram os discípulos” Gaio e Aristarco não eram
a presa que o povo buscava; nenhum dano sério os ameaçava. Mas
se a face do apóstolo, pálida e desfigurada pelo cuidado, fosse vista,
despertaria desde logo as piores paixões da turba, e não haveria a
menor possibilidade humana de salvação para a sua vida.
Paulo estava ainda ansioso para defender a verdade perante a
multidão; mas foi, afinal, dissuadido por uma mensagem de adver-
tência vinda do teatro. “Alguns dos principais da Ásia, que eram
Trabalhando sob dificuldades
249
seu serviço pelo Mestre as circunstâncias o requeriam, ele voluntari-
amente trabalhava em seu ofício. Contudo, estava sempre pronto a
pôr de lado sua obra secular, para enfrentar a oposição dos inimigos
do evangelho, ou aproveitar uma especial oportunidade de salvar
pessoas para Jesus. Sua operosidade e zelo eram uma reprovação à
indolência e ao desejo de acomodação.
[198]
Paulo deu um exemplo contra o sentimento que então ganhava
influência na igreja, de que o evangelho só poderia ser pregado com
êxito por aqueles que estivessem inteiramente libertos da necessi-
dade de trabalho físico. Ele ilustrou de maneira prática o que podia
ser feito por consagrados leigos em muitos lugares onde o povo não
estava familiarizado com as verdades do evangelho. Sua atitude ins-
pirou em muitos humildes trabalhadores o desejo de fazer o que lhes
fosse possível para o avanço da causa de Deus, enquanto ao mesmo
tempo se mantinham com o trabalho diário. Áquila e Priscila não
foram chamados a dar todo o seu tempo ao ministério evangélico; to-
davia esses humildes obreiros foram usados por Deus para mostrar a
Apolo mais perfeitamente o caminho da verdade. O Senhor emprega
vários instrumentos para a realização de Seu propósito e, enquanto
alguns com talentos especiais são escolhidos para devotar todas as
suas energias à tarefa de ensinar e pregar o evangelho, muitos outros,
sobre quem mãos humanas nunca foram postas em ordenação, são
chamados a desempenhar importante parte na salvação.
Há um vasto campo aberto diante do obreiro de manutenção
própria. Muitos podem alcançar valiosas experiências no ministério,
enquanto trabalham parte do tempo em alguma forma de atividade
manual e, por esse método, eficientes obreiros podem-se desenvolver
para importantes serviços em campos necessitados.
O voluntário e abnegado servo de Deus, que trabalha incan-
savelmente pela palavra e pela doutrina, leva sobre o coração um
pesado fardo. Ele não mede sua obra pelas horas. O salário não tem
influência em seu trabalho, nem se desvia ele do dever por causa
de condições desfavoráveis. Recebe do Céu sua missão, e do Céu
espera a recompensa quando a obra a ele confiada estiver concluída.
É desígnio de Deus que tais obreiros estejam livres de ansiedade
desnecessária, a fim de que possam obedecer completamente à or-
dem de Paulo a Timóteo: “Medita estas coisas; ocupa-te nelas”.
1
Timóteo 4:15
. Conquanto devam ser cuidadosos em exercitar-se o
250
Atos dos Apóstolos
bastante para manter a mente e o corpo vigorosos, não é plano de
Deus que sejam obrigados a gastar grande parte de seu tempo em
empreendimentos seculares.
Esses fiéis obreiros, embora sejam dispostos a gastar-se pelo
evangelho não estão isentos de tentação. Quando embaraçados e
sobrecarregados de ansiedade por deixar a igreja de lhes prover o
devido sustento financeiro, alguns são ferozmente assediados pelo
tentador. Quando vêem suas atividades tão levianamente apreciadas,
tornam-se deprimidos. Na realidade, eles aguardam o tempo do
juízo para receber a legítima recompensa, e isso os anima; contudo,
sua família precisa de roupa e alimento. Se se pudessem sentir
libertos de sua missão divina, de bom grado trabalhariam com suas
próprias mãos. Mas eles sentem que seu tempo pertence a Deus,
não obstante a miopia dos que deveriam prover-lhes suficientes
fundos. Sobrepõem-se à tentação de empreenderem atividades pelas
[199]
quais logo se colocariam além do alcance da penúria; e continuam
a trabalhar para o avanço da causa que lhes é mais amada que a
própria vida. Para assim proceder, porém, são forçados a seguir o
exemplo de Paulo e empenham-se por algum tempo em trabalho
manual enquanto continuam a promover sua atividade ministerial.
Assim procedem, não para buscar seus próprios interesses, mas os
interesses da causa de Deus na Terra.
Há vezes em que parece ao servo de Deus impossível realizar a
obra necessária, porque faltam meios para levar avante um trabalho
sólido e forte. Alguns ficam temerosos de que não possam fazer tudo
quanto sentem que é seu dever, com os recursos de que dispõem.
Mas se avançarem com fé, a salvação de Deus será revelada e o êxito
acompanhará seus esforços. Aquele que ordenou a Seus seguidores ir
por todas as partes do mundo, susterá cada obreiro que em obediência
a Seu mando procura proclamar Sua mensagem.
Na promoção de Sua obra, nem sempre o Senhor torna claras
todas as coisas a Seus servos. Algumas vezes, Ele prova a confiança
de Seu povo deparando-lhes circunstâncias que o compelirão a
prosseguir pela fé. Não raro, leva-os a lugares difíceis e apertados,
e ordena que avancem quando seus pés parecem estar tocando as
águas do Jordão. É em tais ocasiões, quando as orações de Seus
servos ascendem a Ele em fervorosa fé, que Deus abre o caminho
diante deles e leva-os a um lugar espaçoso.
Quando os mensageiros de Deus reconhecerem suas responsabi-
lidades em relação às partes necessitadas da vinha do Senhor, e no
espírito do Obreiro por excelência trabalharem incansavelmente para
a conversão de pecadores, os anjos de Deus prepararão o caminho
diante deles, e os meios necessários para o avanço da obra serão
providos.
Os que são esclarecidos darão livremente para sustentar a obra
feita em seu próprio benefício. Atenderão liberalmente a cada pe-
dido de auxílio, e o Espírito de Deus lhes moverá o coração para
sustentar a causa do Senhor não somente nos campos nacionais mas
também nas regiões distantes. Assim os obreiros de outros lugares
serão fortalecidos e a obra do Senhor avançará na maneira por Ele
designada.
[200]
Capítulo 34 — Ministério consagrado
Cristo deu, em Sua vida e lições, perfeito exemplo de ministério
abnegado, o qual tem sua origem em Deus. Deus não vive para Si.
Pela criação do mundo e pela sustentação de todas as coisas, está
Ele constantemente ministrando a outros. Ele “faz que o Seu Sol se
levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos”.
Mateus 5:45
. Esse ideal de ministério o Pai confiou a Seu Filho.
Foi dado a Jesus colocar-Se à frente da humanidade, para por Seu
exemplo ensinar o que significa ministrar. Toda a Sua vida esteve
sob a lei do serviço. Serviu a todos e a todos ministrou.
Mais de uma vez procurou Jesus estabelecer esse princípio entre
Seus discípulos. Quando Tiago e João pediram um lugar de preemi-
nência, Ele disse: “Todo aquele que quiser entre vós fazer-se grande
seja vosso serviçal; e qualquer que entre vós quiser ser o primeiro
seja vosso servo; bem como o Filho do homem não veio para ser
servido, mas para servir, e para dar a Sua vida em resgate de muitos”.
Mateus 20:26-28
.
Desde Sua ascensão, Cristo tem conduzido Sua obra na Terra
por meio de escolhidos embaixadores e por cujo intermédio Ele
fala aos filhos dos homens e ministra a suas necessidades. A grande
Cabeça da igreja dirige Sua obra através da colaboração de homens
ordenados por Deus para agir como Seus representantes.
A posição dos que foram chamados por Deus para trabalhar por
palavra e doutrina para o reerguimento de Sua igreja é de grande
responsabilidade. Estão no lugar de Cristo rogando a homens e
mulheres que se reconciliem com Deus; e eles só podem cumprir
sua missão se receberem sabedoria e poder do alto.
Os ministros de Cristo são guardadores espirituais do povo con-
fiado a seu cuidado. Sua obra tem sido comparada à do vigia. Nos
tempos antigos, as sentinelas eram muitas vezes colocadas sobre os
muros da cidade, onde, de posição vantajosa, pudessem dominar im-
portantes postos a ser guardados, e dar advertência da aproximação
do inimigo. De sua fidelidade dependia a segurança de todos os que
252
Ministério consagrado
253
estavam dentro da cidade. A determinados intervalos, exigia-se-lhes
que chamassem uns aos outros a fim de estarem seguros de que
todos estavam despertos e que nenhum dano sobreviera a alguém. O
brado de animação ou de advertência era repetido de um ao outro
até que ecoasse ao redor de toda a cidade.
[201]
O Senhor declara a cada ministro: “A ti, pois, ó filho do homem,
te constituí por vigia sobre a casa de Israel; tu, pois, ouvirás a palavra
da Minha boca, e lha anunciarás da Minha parte. Se Eu disser ao
ímpio: Ó ímpio, certamente morrerás; e tu não falares, para desviar
o ímpio de seu caminho, morrerá esse ímpio na sua iniqüidade, mas
o seu sangue Eu o demandarei da tua mão. Mas, quando tu tiveres
falado para desviar o ímpio de seu caminho, [...] livraste a tua alma”.
Ezequiel 33:7-9
.
As palavras do profeta declaram a solene responsabilidade dos
que são designados como guardas da igreja de Deus, despenseiros
dos mistérios de Deus. Devem ser vigias sobre os muros de Sião,
para fazer soar o toque de alarme à aproximação do inimigo. Pessoas
estão em perigo de cair sob a tentação, e perecerão, a menos que os
ministros de Deus sejam fiéis ao seu encargo. Se por qualquer razão
seu senso espiritual se torna tão embotado que são incapazes de
discernir o perigo, e por deixarem de dar advertência o povo perecer,
Deus requererá de sua mão o sangue dos que se perderem.
É privilégio dos vigias sobre os muros de Sião viver tão perto
de Deus e ser de tal modo suscetíveis às impressões de Seu Espírito
que Ele possa operar por meio deles, a fim de advertir do perigo a
homens e mulheres, e apontar-lhes o lugar de segurança. Fielmente
devem adverti-los do inevitável resultado da transgressão, e devem
fielmente salvaguardar os interesses da igreja. Em tempo algum
devem eles relaxar sua vigilância. Sua obra requer o exercício de
cada habilidade. Como sons de trombeta sua voz deve fazer-se ouvir,
e nunca deixar soar uma nota confusa ou hesitante. Não devem
trabalhar pelo salário, mas porque não podem agir de outra maneira,
pois sentem que há uma condenação sobre eles se deixarem de
pregar o evangelho. Escolhidos por Deus, selados com o sangue
da consagração, devem libertar homens e mulheres da destruição
impendente.
O pastor que é coobreiro de Cristo tem um profundo senso da
santidade de sua obra, e das labutas e sacrifícios requeridos para
272
Atos dos Apóstolos
muitos foram acrescentados ao número dos crentes em toda aquela
região.
[217]
Capítulo 37 — A última viagem de Paulo a
Jerusalém
Este capítulo é baseado em
Atos dos Apóstolos 20:4-38
;
21:1-16
.
Paulo tinha grande desejo de alcançar Jerusalém antes da Páscoa,
para que assim tivesse uma oportunidade de encontrar-se com os que
vinham de todas as partes do mundo para assistir à festa. Acariciava
sempre a esperança de servir, de algum modo, como instrumento
na remoção dos preconceitos de seus patrícios incrédulos, a fim de
que fossem levados a aceitar a preciosa luz do evangelho. Desejava
também visitar a igreja de Jerusalém e levar-lhes os donativos que
as igrejas gentílicas enviavam para os irmãos pobres da Judéia. E
por essa visita esperava promover mais firme união entre os judeus
conversos e os conversos gentios.
Tendo completado seu trabalho em Corinto, determinou navegar
diretamente para um dos portos na costa da Palestina. Haviam-se
tomado todas as disposições e ele estava prestes a tomar o navio
quando teve aviso de uma trama dos judeus para tirar-lhe a vida. Até
então, tinham sido frustrados todos os esforços dos adversários da
fé para acabar com a obra do apóstolo.
O êxito que alcançou a pregação do evangelho havia despertado
de novo a ira dos judeus. Chegavam de cada canto informações
da disseminação da nova doutrina, segundo a qual os judeus eram
libertados da observância dos ritos da lei cerimonial, e os gentios
eram admitidos a iguais privilégios com os judeus como filhos de
Abraão. Paulo, em sua pregação em Corinto, apresentou os mesmos
argumentos que expunha com tanta veemência em suas epístolas.
Sua categórica afirmação: “Não há grego nem judeu, circuncisão
nem incircuncisão” (
Colossences 3:11
), foi considerada pelos ini-
migos como ousada blasfêmia, e decidiram que sua voz devia ser
silenciada.
Tendo sido avisado da conspiração, Paulo decidiu dar a volta pela
Macedônia. Teve assim de renunciar ao plano de chegar a Jerusalém
273
274
Atos dos Apóstolos
em tempo para as festividades da Páscoa, mas esperava lá estar para
o Pentecostes.
Na companhia de Paulo e Lucas estavam “Sópater, de Beréia,
e dos de Tessalônica, Aristarco e Segundo, e Gaio, de Derbe, e
Timóteo, e dos da Ásia, Tíquico e Trófimo”.
Atos dos Apóstolos
20:4
. Paulo trazia consigo grande soma de dinheiro das igrejas
gentílicas, e pretendia depô-la nas mãos dos irmãos encarregados
do trabalho na Judéia; e para esse fim combinou com várias igrejas
contribuintes que representantes seus o acompanhassem a Jerusalém.
[218]
Em Filipos, Paulo demorou-se para celebrar a Páscoa. Só Lucas
ficou com ele, partindo os demais membros da comitiva para Trôade,
a fim de ali o esperarem. Os filipenses eram dentre os conversos do
apóstolo os mais amorosos e sinceros, e durante os oito dias da festa
ele desfrutou pacífica e feliz comunhão com eles.
Embarcando em Filipos, Paulo e Lucas alcançaram os compa-
nheiros cinco dias mais tarde, em Trôade, e demoraram-se sete dias
com os crentes naquele lugar. Na última noite de sua estada ali os
irmãos se ajuntaram “para partir o pão” O fato de que seu amado
mestre ia partir, promoveu um ajuntamento maior que o de cos-
tume. Reuniram-se num “cenáculo” (
Atos dos Apóstolos 20:7, 8
),
no terceiro andar. Ali, no fervor de seu amor e solicitude por eles, o
apóstolo pregou até a meia-noite.
Numa das janelas abertas estava assentado um jovem por nome
Êutico. Nessa perigosa posição adormeceu, e caiu ao solo. Num
momento tudo era susto e confusão. O jovem foi levantado morto, e
muitos se acercaram dele com gritos e lamentações. Mas Paulo, pas-
sando por entre os irmãos atribulados, abraçou-o e fez uma fervorosa
oração para que Deus restaurasse a vida ao morto. Sua petição foi
atendida. Sobrepondo-se aos clamores e lamentações, ouviu-se a voz
do apóstolo dizendo: “Não vos perturbeis, que a sua alma nele está”
Com júbilo, os crentes voltaram a se reunir no cenáculo. Havendo
participado da comunhão, Paulo “ainda lhes falou largamente até à
alvorada”.
Atos dos Apóstolos 20:10, 11
.
O navio em que Paulo e seus companheiros deviam prosseguir
viagem estava prestes a partir e os irmãos apressaram-se a subir a
bordo. O apóstolo, porém, preferiu tomar o caminho mais perto, por
terra, entre Trôade e Assôs, encontrando-se com seus companheiros
nesta cidade. Isto lhe deu um pouco de tempo para meditação e
Paulo prisioneiro
281
entravar os obreiros com muitas restrições desnecessárias. Assim,
surgiu ali um grupo de homens que não estavam familiarizados pes-
soalmente com as circunstâncias difíceis e peculiares necessidades
enfrentadas pelos obreiros em campos distantes, e que entretanto
sustentavam ter autoridade para levar seus irmãos nesses campos a
seguir certos e determinados métodos de trabalho. Julgavam que a
obra de pregar o evangelho tinha de ser levada avante em harmonia
com suas opiniões.
Vários anos haviam passado desde que os irmãos em Jerusalém,
juntamente com representantes de outras igrejas principais, tinham
dado cuidadosa atenção às perturbadoras questões que haviam sur-
[224]
gido com respeito a métodos seguidos pelos que trabalhavam entre
os gentios. Como resultado desse concílio, os irmãos tinham sido
unânimes em fazer definidas recomendações às igrejas concernentes
a certos ritos e costumes, inclusive a circuncisão. Nesse concílio
geral os irmãos foram também unânimes em recomendar Paulo e
Barnabé às igrejas cristãs como obreiros dignos da inteira confiança
de cada crente.
Havia entre os presentes a essa reunião, alguns que haviam criti-
cado severamente os métodos de trabalho seguidos pelos apóstolos
sobre quem repousava o principal encargo de levar o evangelho ao
mundo gentio. Mas durante o concílio, sua visão do propósito de
Deus se tinha ampliado, e eles se uniram a seus irmãos em fazer
sábias decisões que tornaram possível a unificação de todo o corpo
de crentes.
Posteriormente, quando se tornou claro que os conversos dentre
os gentios estavam aumentando rapidamente, houve alguns poucos
dentre os irmãos dirigentes em Jerusalém que começaram de novo a
acariciar seus anteriores preconceitos contra os métodos de Paulo e
seus companheiros.
Esses preconceitos se fortaleceram com o passar dos anos, até
que alguns dos dirigentes determinaram que a obra de pregar o
evangelho devia daí por diante ser dirigida de acordo com suas pró-
prias idéias. Se Paulo conformasse seus métodos a certa orientação
por eles defendida, reconheceriam sua obra e a sustentariam; de
outro modo, não mais a veriam com favor nem lhe concederiam a
manutenção.
292
Atos dos Apóstolos
da Síria tinham vivido à altura de toda a luz que possuíam; assim
foram eles considerados mais justos que o povo escolhido de Deus
que se tinha desviado dEle, e sacrificado o princípio à conveniência
e à honra mundana.
Cristo disse aos judeus de Nazaré uma terrível verdade quando
declarou que com o apóstata Israel não havia segurança para o
fiel mensageiro de Deus. Eles não reconheceriam seu valor nem
apreciariam seus labores. Enquanto os dirigentes judeus professavam
ter grande zelo pela honra de Deus e o bem de Israel, eram inimigos
de ambos. Por preceito e exemplo estavam levando o povo mais
e mais longe da obediência a Deus — guiando-o onde Deus não
poderia ser sua defesa no dia da angústia.
As palavras de reprovação do Salvador, aos homens de Nazaré,
aplicavam-se, no caso de Paulo, não apenas aos incrédulos judeus,
mas a seus próprios irmãos na fé. Houvessem os dirigentes na igreja
abandonado inteiramente seus sentimentos de amargura contra o
apóstolo, aceitando-o como alguém especialmente chamado por
Deus para levar o evangelho aos gentios, e o Senhor o teria poupado
para eles. Deus não havia ordenado que os trabalhos de Paulo tão
cedo tivessem fim; mas não operou um milagre para conter o enca-
deamento de circunstâncias que a atitude dos dirigentes da igreja em
Jerusalém haviam provocado.
Esse espírito está ainda produzindo os mesmos resultados. A
negligência em apreciar e aproveitar as provisões da divina graça
tem privado a igreja de muitas bênçãos. Quantas vezes teria o Senhor
prolongado a obra de um fiel ministro, tivesse seu trabalho sido apre-
ciado! Mas se a igreja permite ao inimigo perverter o entendimento,
[233]
de maneira que representem e interpretem mal as palavras e atos do
servo de Cristo; se se permitem opor-se-lhe e estorvar a utilidade
própria, o Senhor, às vezes, remove deles a bênção que Ele deu.
Satanás está constantemente operando por meio de seus agen-
tes para desanimar e destruir aqueles a quem Deus tem escolhido
para realizar uma grande e boa obra. Podem eles estar prontos para
sacrificar mesmo a própria vida para o avançamento da causa de
Cristo, não obstante o grande enganador sugerirá a seus irmãos dú-
vidas referentes a eles que, se mantidas, minarão a confiança em sua
integridade de caráter, impedindo assim sua utilidade. Muitas vezes,
ele alcança êxito em acarretar sobre eles, por intermédio de seus
Paulo prisioneiro
293
próprios irmãos, tal tristeza de coração que Deus graciosamente Se
interpõe para dar repouso a Seus perseguidos servos. Depois que as
mãos estão dobradas sobre o peito que já não vibra, quando a voz de
advertência e encorajamento está em silêncio, então os obstinados
podem ser despertados para ver e apreciar a bênção que repeliram.
Sua morte pode realizar o que sua vida não conseguir fazer.
[234]
Capítulo 39 — Perante o tribunal de Cesaréia
Este capítulo é baseado em
Atos dos Apóstolos 24
.
Cinco dias depois de haver Paulo chegado a Cesaréia, seus acusa-
dores chegaram de Jerusalém, acompanhados por Tértulo, um orador
a quem tinham aliciado como conselheiro. Foi concedida ao caso
imediata audiência. Paulo foi levado perante a assembléia, e Tértulo
“começou a acusá-lo” Julgando que a lisonja pudesse ter sobre o
governador romano mais influência que as simples afirmações da
verdade e da justiça, o astuto orador começou seu discurso louvando
a Félix: “Visto como por ti temos tanta paz e por tua prudência se
fazem a este povo muitos e louváveis serviços, sempre e em todo o
lugar, ó potentíssimo Félix, com todo o agradecimento o queremos
reconhecer”.
Atos dos Apóstolos 24:2, 3
.
Tértulo desceu aqui a deslavada falsidade; pois o caráter de Félix
era indigno e desprezível. Dele foi dito que “na prática de toda
espécie de luxúria e crueldade, exerceu o poder de um rei com a
têmpera de um escravo” Tácito, História, cap. 5, par. 9. Todos os
que ouviram Tértulo sabiam que suas aduladoras palavras eram uma
mentira; mas seu desejo de assegurar a condenação de Paulo era
mais forte que seu amor à verdade.
Em seu discurso, Tértulo acusou Paulo de crimes que, se prova-
dos, teriam resultado em sua condenação por alta traição contra o
governo. “Temos achado que este homem é uma peste”, declarou o
orador, “e promotor de sedições entre todos os judeus, por todo o
mundo; e o principal defensor da seita dos nazarenos, o qual intentou
também profanar o templo”.
Atos dos Apóstolos 24:5, 6
. Tértulo
afirmou, então, que Lísias, comandante da guarnição em Jerusalém,
tinha arrebatado Paulo aos judeus com violência, quando estavam
para julgá-lo por sua lei eclesiástica, e que assim os forçou a apre-
sentar o assunto perante Félix. Essas afirmações eram feitas com o
desígnio de induzir o procurador a devolver Paulo à corte judaica.
Todas as acusações foram sustentadas com veemência pelos judeus
294
Perante o tribunal de Cesaréia
295
presentes, os quais nenhum esforço fizeram para ocultar seu ódio ao
prisioneiro.
Félix teve suficiente perspicácia para ler a disposição e caráter
dos acusadores de Paulo. Sabia por que motivo o tinham lisonjeado,
e viu também que não tinham conseguido provar suas acusações
contra Paulo. Voltando-se para o acusado, acenou-lhe para que res-
pondesse por si. Paulo não gastou palavras em cumprimentos, mas
afirmou simplesmente que com tanto maior ânimo se defendia pe-
[235]
rante Félix, uma vez que este era, havia tanto tempo, procurador,
e portanto tinha bom conhecimento das leis e costumes dos ju-
deus. Referindo-se às acusações apresentadas contra ele, mostrou
plenamente que nenhuma era verdadeira. Declarou que não havia
provocado distúrbio em parte alguma de Jerusalém, nem profanado
o santuário. “Não me acharam no templo falando com alguém”,
declarou, “nem amotinando o povo nas sinagogas, nem na cidade.
Nem tão pouco podem provar as coisas de que agora me acusam”.
Atos dos Apóstolos 24:12, 13
.
Conquanto confessando que “conforme aquele caminho que
chamam seita” adorava ao Deus de seus pais, sustentou que sempre
havia crido em “tudo quanto está escrito na lei e nos profetas”; e que
em harmonia com o claro ensino das Escrituras, cria na ressurreição
dos mortos. Declarou ainda mais que o propósito orientador de sua
vida era “sempre ter uma consciência sem ofensa, tanto para com
Deus como para com os homens”.
Atos dos Apóstolos 24:14-16
.
De maneira sincera e reta ele declarou o objetivo de sua visita
a Jerusalém, e as circunstâncias de sua prisão e julgamento: “Ora,
muitos anos depois, vim trazer a minha nação esmolas e ofertas.
Nisto me acharam já santificado no templo, não em ajuntamentos,
nem com alvoroços, uns certos judeus da Ásia, os quais convinha
que estivessem presentes perante ti, e me acusassem, se alguma coisa
contra mim tivessem. Ou digam estes mesmos, se acharam em mim
alguma iniqüidade, quando compareci perante o conselho, a não
ser estas palavras, que, estando entre eles, clamei: Hoje sou julgado
por vós acerca da ressurreição dos mortos”.
Atos dos Apóstolos
24:17-21
.
O apóstolo falou com ardorosa e evidente sinceridade, e suas
palavras levavam um peso de convicção. Cláudio Lísias, em sua
carta a Félix, tinha dado testemunho similar com respeito à conduta
296
Atos dos Apóstolos
de Paulo. Além disso, Félix tinha melhor conhecimento da religião
judaica do que muitos supunham. A clara exposição que Paulo fi-
zera dos fatos, capacitou Félix neste caso a entender ainda mais
claramente os motivos pelos quais os judeus eram dominados ao
procurar acusar o apóstolo de sedição e conduta desleal. O governa-
dor não queria agradar a eles condenando injustamente um cidadão
romano, nem o poderia entregar para que o matassem sem um reto
julgamento. No entanto, Félix não conhecia mais alto motivo que
o interesse próprio, e era controlado pelo amor da fama e desejo
de promoção. O temor de ofender os judeus o impediu de fazer in-
teira justiça a um homem que sabia ser inocente. Decidiu, portanto,
suspender o julgamento até que Lísias estivesse presente, dizendo:
“Quando o tribuno Lísias tiver descido, então tomarei inteiro conhe-
cimento dos vossos negócios”
O apóstolo permaneceu prisioneiro, mas Félix ordenou ao centu-
rião que havia sido indicado para guardar Paulo, “que o guardassem
em prisão, tratando-o com brandura, e que a ninguém dos seus proi-
bisse servi-lo ou vir ter com ele”.
Atos dos Apóstolos 24:22, 23
.
[236]
Não foi muito depois disso que Félix e sua esposa, Drusila,
mandaram chamar Paulo para, em entrevista privada, poderem ouvi-
lo “acerca da fé em Cristo”.
Atos dos Apóstolos 24:24
. Eles estavam
desejosos e mesmo ávidos de ouvir a respeito dessas novas verdades
— verdades que poderiam jamais ouvir de novo, e que, se rejeitadas,
dariam um pronto testemunho contra eles no dia de Deus.
Paulo considerou essa oportunidade como provida por Deus, e
fielmente a aproveitou. Sabia achar-se na presença de um homem
que tinha poder de o condenar à morte ou de o livrar; contudo não
se dirigiu a Félix e Drusila com palavras de elogio ou lisonjas. Sabia
que suas palavras seriam para eles um cheiro de vida ou de morte, e
esquecendo toda consideração egoísta, procurou despertá-los para o
senso de seu perigo.
O apóstolo compreendia que o evangelho tinha uma reivindica-
ção sobre quem quer que atentasse para suas palavras; que um dia
eles estariam ou entre os puros e santos ao redor do grande trono
branco, ou com aqueles a quem Cristo haveria de dizer: “Apartai-vos
de Mim, vós que praticais a iniqüidade”.
Mateus 7:23
. Ele sabia que
teria de encontrar cada um de seus ouvintes diante do tribunal do
Perante o tribunal de Cesaréia
297
Céu, e que aí teria de prestar contas, não apenas de tudo o que havia
dito e feito, mas do motivo e espírito de suas palavras e ações.
Tão violenta e cruel havia sido a conduta de Félix, que poucos
haviam alguma vez ousado dar-lhe a entender que seu caráter e con-
duta não estavam isentos de faltas. Paulo, porém, não tinha temor
do homem. Expôs claramente sua fé em Cristo, e as razões dessa
fé, e foi assim levado a falar particularmente das virtudes essen-
ciais do caráter cristão, de que o arrogante par diante dele era tão
sensivelmente destituído.
Ele exaltou perante Félix e Drusila o caráter de Deus — Sua reti-
dão, justiça e eqüidade, e a natureza de Sua lei. Mostrou claramente
que é dever do homem levar uma vida de sobriedade e temperança,
mantendo as paixões sob o controle da razão, em conformidade
com a lei de Deus, e preservando as faculdades físicas e mentais
em condições sadias. Declarou que viria, seguramente, um dia de
juízo, quando todos seriam recompensados de acordo com o que
tivessem feito no corpo, e quando seria plenamente revelado que a
riqueza, posição ou títulos são destituídos de poder para alcançar
para o homem o favor de Deus, ou para livrá-lo dos resultados do
pecado. Mostrou que essa vida é o tempo de preparo do homem para
a vida futura. Negligenciassem eles os presentes privilégios e opor-
tunidades, e sofreriam eterna perda; nenhuma nova oportunidade de
graça lhes poderia ser dada.
Paulo frisou especialmente os profundos reclamos da lei de Deus.
Mostrou como ela alcança os íntimos segredos da natureza moral do
homem, derramando um dilúvio de luz sobre aquilo que tem estado
oculto à vista e ao conhecimento dos seres humanos. O que as mãos
podem fazer ou a língua proferir — isso que a vida exterior revela —
[237]
mostra, imperfeitamente embora, o caráter moral do homem. A lei
esquadrinha seus pensamentos, motivos e propósitos. As perigosas
paixões que permanecem ocultas à vista dos homens, a inveja, o
ódio, o sensualismo, a ambição, as propostas perversas nos profundos
recessos do coração, ainda não executadas por falta de oportunidade
— tudo isso a lei de Deus condena.
Paulo procurou dirigir a mente de seus ouvintes para o grande
sacrifício pelo pecado. Apontou aos sacrifícios que constituíam som-
bra dos bens futuros, e apresentou, então, a Cristo como o antítipo
de todas essas cerimônias — o objeto para o qual elas apontavam
298
Atos dos Apóstolos
como a única fonte de vida e esperança para o homem caído. Santos
homens do passado foram salvos pela fé no sangue de Cristo. Ao
contemplarem as agonias de morte das vítimas sacrificais, olhavam
através dos séculos para o Cordeiro de Deus que devia tirar o pecado
do mundo.
Deus, com justiça, reclama o amor e obediência de todas as
Suas criaturas. Deu-lhes em Sua lei uma perfeita norma de retidão.
Muitos, porém, se esquecem de seu Criador, e escolhem seguir seus
próprios caminhos, em oposição à vontade de Deus. Pagam com
inimizade o amor que é tão alto quanto o Céu e tão amplo quanto
o Universo. Deus não pode baixar os reclamos de Sua lei a fim de
corresponder à norma de homens ímpios; nem pode o homem em
sua própria capacidade, cumprir as exigências da lei. Só pela fé em
Cristo pode o pecador ser purificado da culpa e capacitado a prestar
obediência à lei de seu Criador.
Assim Paulo, o prisioneiro, apresentou as exigências da lei di-
vina tanto para judeus como para gentios, e apresentou a Jesus, o
desprezado Nazareno, como o Filho de Deus, e Redentor do mundo.
A princesa judia bem compreendia o sagrado caráter daquela
lei que tão desavergonhadamente transgredia; mas seu preconceito
contra o Homem do Calvário endureceu-lhe o coração contra a pa-
lavra de vida. Mas Félix nunca ouvira antes a verdade; e à medida
que o Espírito de Deus lhe imprimia convicção à alma, sentia-se
profundamente agitado. A consciência, agora desperta, fez ouvir sua
voz; e Félix sentiu que as palavras de Paulo eram verdadeiras. Sua
memória retornou ao culposo passado. Com terrível clareza surgi-
ram perante ele os segredos de seus primeiros tempos de homem
sanguinário e perverso, e o relatório tenebroso de seus últimos anos.
Viu-se licencioso, cruel, desonesto. Jamais tinha sido a verdade as-
sim levada ao íntimo de seu coração. Nunca antes seu coração se
enchera de terror. O pensamento de que todos os segredos de sua
carreira de crimes estavam abertos aos olhos de Deus, e que ele seria
julgado conforme as suas obras fê-lo tremer de pavor.
Mas em vez de permitir que suas convicções o guiassem ao
arrependimento, procurou livrar-se dessas reflexões indesejáveis. A
entrevista com Paulo foi abreviada. “Por agora vai-te”, disse; “e em
tendo oportunidade te chamarei”
[238]
Perante o tribunal de Cesaréia
299
Quão amplo é o contraste entre o procedimento de Félix e o
do carcereiro de Filipos! Os servos do Senhor foram levados em
cadeias ao carcereiro, como Paulo a Félix. A evidência que deram
de estar sendo sustidos por um divino poder, seu regozijo sob o
sofrimento e desventura, seu destemor quando a terra vacilou com o
terremoto, e seu espírito de perdão semelhante ao de Cristo levaram
a convicção ao coração do carcereiro, que tremente confessou seus
pecados e encontrou perdão. Félix tremeu, mas não se arrependeu.
O carcereiro, jubiloso, abriu ao Espírito de Deus o coração e o lar;
Félix ordenou que o mensageiro divino se retirasse. Um escolheu
tornar-se filho de Deus e herdeiro do Céu; o outro preferiu os que
praticavam a iniqüidade.
Durante dois anos, nenhuma outra atitude foi tomada contra
Paulo, embora permanecesse prisioneiro. Félix visitou-o várias ve-
zes e ouviu-lhe atentamente as palavras. Mas o motivo real dessa
aparente benevolência era o desejo de ganho, e insinuou que medi-
ante grande soma de dinheiro Paulo poderia assegurar sua liberdade.
O apóstolo, entretanto, era de natureza demasiado nobre para libertar-
se por meio de suborno. Não era culpado de crime algum, e não
se aviltaria cometendo um mal para alcançar a liberdade. Demais
era muito pobre para poder pagar esse resgate, caso a isso estivesse
disposto, e não apelaria, em seu próprio benefício, para a simpatia e
generosidade de seus conversos. Compreendia que estava nas mãos
de Deus, e não poderia interferir no propósito divino a respeito de
sua pessoa.
Félix foi finalmente chamado a Roma, por causa de graves males
feitos aos judeus. Antes de deixar Cesaréia em resposta a esse cha-
mado, desejou “comprazer aos judeus” (
Atos dos Apóstolos 24:27
),
deixando Paulo na prisão. Mas Félix não alcançou êxito em sua ten-
tativa de readquirir a confiança dos judeus. Foi removido do cargo
em desonra, e Pórcio Festo foi indicado para sucedê-lo, com sede
em Cesaréia.
Havia sido permitido que um raio de luz do Céu brilhasse sobre
Félix, quando Paulo arrazoou com ele a respeito da justiça, tem-
perança e juízo vindouro. Essa foi a oportunidade que o Céu lhe
enviara para que visse seus pecados e os abandonasse. Mas dissera
ao mensageiro de Deus: “Por agora vai-te, e em tendo oportunidade
te chamarei”.
Atos dos Apóstolos 24:25
. Menosprezara a última
oferta de misericórdia. Nunca mais deveria receber outro convite de
Deus.
[239]
Capítulo 40 — Paulo apela para César
Este capítulo é baseado em
Atos dos Apóstolos 25:1-12
.
“Tendo, pois, Festo assumido o governo da província, três dias
depois, subiu de Cesaréia para Jerusalém; e, logo, os principais sacer-
dotes e os maiorais dos judeus lhe apresentaram queixa contra Paulo
e lhe solicitavam, pedindo como favor, em detrimento de Paulo, que
o mandasse vir a Jerusalém”.
Atos dos Apóstolos 25:1-3
. Fazendo
esse pedido, tinham como plano armar-lhe ciladas no caminho para
Jerusalém e matá-lo. Mas Festo tinha alto senso da responsabilidade
de sua posição, e cortesmente se eximiu de enviar Paulo. Respon-
deu “não ser costume dos romanos entregar algum homem à morte,
sem que o acusado tenha presentes os seus acusadores, e possa
defender-se da acusação”.
Atos dos Apóstolos 25:16
. Declarou que
“brevemente partiria” para Cesaréia. “Os que pois, disse, dentre vós
têm poder, desçam comigo e, se neste varão houver algum crime,
acusem-no”.
Atos dos Apóstolos 25:4, 5
.
Não era isso o que os judeus desejavam. Não haviam esquecido
sua anterior derrota em Cesaréia. Em contraste com a calma atitude
do apóstolo e seus irretorquíveis argumentos, a própria malignidade
do espírito deles e suas descabidas acusações apareceriam da pior
maneira possível. De novo insistiram para que Paulo fosse enviado
a Jerusalém para ser julgado, mas Festo manteve firmemente seu
propósito de proporcionar a Paulo um julgamento justo em Cesaréia.
Deus, em Sua providência, controlou a decisão de Festo para que a
vida do apóstolo fosse poupada.
Havendo falhado seus propósitos, os líderes judeus imediata-
mente se prepararam para testemunhar contra Paulo perante o tri-
bunal do procurador. Havendo retornado a Cesaréia, depois de pou-
cos dias de permanência em Jerusalém, Festo “no dia seguinte,
assentando-se no tribunal, mandou que trouxessem Paulo” “Os ju-
deus que haviam descido de Jerusalém”, “o rodearam, trazendo con-
tra Paulo muitas e graves acusações, que não podiam provar”.
Atos
301
302
Atos dos Apóstolos
dos Apóstolos 25:6, 7
. Estando nessa ocasião sem um advogado,
os próprios judeus apresentaram suas acusações. Ao prosseguir o
julgamento, o acusado com calma e mansidão mostrou claramente a
falsidade das acusações.
Festo compreendeu que a questão em consideração se prendia
inteiramente a doutrinas judaicas, e que, convenientemente enten-
dido, nada havia nas acusações feitas a Paulo, pudessem elas ser
provadas, que merecesse sentença de morte, ou mesmo de prisão.
Contudo, viu com clareza a tempestade de ódio que se levantaria
se Paulo não fosse condenado ou entregue às mãos deles. “Todavia
[240]
Festo, querendo comprazer aos judeus” (
Atos dos Apóstolos 25:9
),
voltando-se para Paulo, perguntou se estava disposto a ir a Jerusalém
sob sua proteção, para ser julgado pelo Sinédrio.
O apóstolo sabia que não podia esperar justiça do povo que,
por seus crimes, estava atraindo sobre si a ira de Deus. Sabia que,
como o profeta Elias, estaria mais seguro entre os pagãos do que
com os que haviam rejeitado a luz do Céu e endurecido o coração
contra o evangelho. Cansado de contendas, seu ativo espírito mal
podia suportar as repetidas delongas e fatigante retardamento de seu
julgamento e prisão. Decidiu, pois, valer-se de seu privilégio, como
cidadão romano, e apelar para César.
Em resposta à pergunta do governador, Paulo disse: “Estou pe-
rante o tribunal de César, onde convém que seja julgado; não fiz
agravo algum aos judeus, como tu muito bem sabes. Se fiz algum
agravo, ou cometi alguma coisa digna de morte, não recuso morrer;
mas, se nada há das coisas de que estes me acusam, ninguém me
pode entregar a eles; apelo para César”.
Atos dos Apóstolos 25:10,
11
.
Festo nada sabia das conspirações dos judeus para matar Paulo,
e ficou surpreso com este apelo a César. Entretanto, as palavras do
apóstolo puseram fim ao julgamento. “Festo, tendo falado com o
conselho respondeu: Apelaste para César? Para César irás”.
Atos
dos Apóstolos 25:12
.
Assim foi que uma vez mais, por causa do ódio nascido do fana-
tismo e da justiça própria, um servo de Deus volta-se para os pagãos
em busca de proteção. Foi esse mesmo ódio que forçou o profeta
Elias a buscar socorro da viúva de Sarepta; e levou os arautos do
evangelho a volver-se dos judeus, para proclamar a mensagem do
Paulo apela para César
303
evangelho aos gentios. E este ódio o povo de Deus que vive neste
século terá ainda que enfrentar. Entre muitos dos professos segui-
dores de Cristo, existe o mesmo orgulho, formalismo e egoísmo, o
mesmo espírito de opressão que ocupou tão grande lugar no coração
dos judeus. No futuro, homens que declaram ser representantes de
Cristo tomarão atitude idêntica à dos sacerdotes e príncipes no seu
trato com Cristo e os apóstolos. Na grande crise por que deverão em
breve passar, os fiéis servos de Deus encontrarão a mesma dureza de
coração, a mesma determinação cruel, o mesmo ódio inflexível.
Todo o que nesse dia mau se dispuser a servir a Deus com
destemor, segundo os ditames de sua consciência, necessitará de
coragem, firmeza e do conhecimento de Deus e Sua Palavra; pois os
que forem fiéis a Deus serão perseguidos, seus motivos impugnados,
desvirtuados seus melhores esforços e seus nomes repudiados como
um mal. Satanás trabalhará com todo o seu poder enganador para
influenciar o coração e obscurecer o entendimento, a fim de que o
mal pareça bem, e o bem mal. Quanto mais forte e mais pura a fé
do povo de Deus, e mais firme sua determinação de obedecer-Lhe,
tanto mais ferozmente procurará Satanás instigar contra eles a ira
daqueles que, embora se declarando justos, tripudiam sobre a lei de
[241]
Deus. Requererá a mais firme confiança, o mais heróico propósito
reter firme a fé que uma vez foi entregue aos santos.
Deus deseja que Seu povo se prepare para a crise prestes a vir.
Preparados ou não, todos terão de enfrentá-la; e somente os que têm
levado a vida em conformidade com a norma divina, permanecerão
firmes naquele tempo de prova. Quando legisladores seculares se
unirem a ministros religiosos para legislarem em assuntos de cons-
ciência, ver-se-á, então, quem realmente teme a Deus e O serve.
Quando as trevas são mais profundas, mais resplandece a luz de um
caráter semelhante ao de Deus. Quando toda a demais confiança
falha, então se verá quem tem uma confiança permanente em Jeová.
E enquanto os inimigos da verdade estiverem, de todos os lados,
observando os servos do Senhor para o mal, Deus estará vigiando
sobre eles para o bem. Ele será para eles como a sombra de uma
grande rocha numa terra sedenta.
[242]
Capítulo 41 — Quase persuadido
Este capítulo é baseado em
Atos dos Apóstolos 25:13-27
;
26
.
Paulo tinha apelado para César, e Festo não tinha outro recurso
senão enviá-lo a Roma. Mas algum tempo se passou antes que pu-
desse ser encontrado um navio oportuno; e como outros prisioneiros
deviam ser enviados com Paulo, a consideração de seus casos tam-
bém ocasionou demora. Isso deu a Paulo oportunidade de apresentar
as razões de sua fé diante dos principais homens de Cesaréia, como
também perante o rei Agripa II, o último dos Herodes.
“E, passados alguns dias, o rei Agripa e Berenice vieram a Cesa-
réia, a saudar Festo. E, como ali ficassem muitos dias, Festo contou
ao rei os negócios de Paulo, dizendo: Um certo varão foi deixado por
Félix aqui preso. Por cujo respeito os principais dos sacerdotes e os
anciãos dos judeus, estando eu em Jerusalém, compareceram perante
mim, pedindo sentença contra ele”.
Atos dos Apóstolos 25:13-15
.
Ele esboçou as circunstâncias que levaram o prisioneiro a apelar
para César, contando do recente julgamento de Paulo perante ele,
e dizendo que os judeus não tinham apresentado contra Paulo ne-
nhuma acusação das que ele supunha, mas “algumas questões acerca
de sua superstição, e de um tal Jesus, defunto, que Paulo afirmava
viver”.
Havendo Festo contado sua história, Agripa tornou-se interes-
sado, e disse: “Bem quisera eu também ouvir esse homem” Con-
forme sua vontade, foi arranjada uma reunião para o dia seguinte.
“E, no dia seguinte, vindo Agripa e Berenice, com muito aparato,
entraram no auditório com os tribunos e varões principais da cidade,
sendo trazido Paulo por mandado de Festo”.
Atos dos Apóstolos
25:19, 22, 23
.
Em homenagem aos visitantes, Festo buscara tornar a ocasião
bastante aparatosa. As ricas vestes do procurador e de seus hós-
pedes, as espadas dos soldados e as brilhantes armaduras de seus
comandantes, emprestavam brilho à cena.
304
Quase persuadido
305
E agora Paulo, ainda algemado, achava-se diante do grupo reu-
nido. Que contraste era ali apresentado! Agripa e Berenice possuíam
poder e posição, e eram por isso favorecidos pelo mundo. Mas eram
destituídos dos traços de caráter que Deus estima. Eram transgres-
sores de Sua lei, corruptos de coração e de vida. Sua conduta era
aborrecida pelo Céu.
O idoso prisioneiro, acorrentado a um soldado, não tinha em seu
aspecto coisa alguma que levasse o mundo a prestar-lhe homenagem.
[243]
Entretanto, nesse homem aparentemente sem amigos, riqueza ou
posição, preso por sua fé no Filho de Deus, o Céu todo estava interes-
sado. Os anjos eram seus assistentes. Caso se houvesse manifestado
a glória de um só desses resplandecentes mensageiros, a pompa e
o orgulho da realeza teria empalidecido; rei e cortesãos teriam sido
lançados por terra, como os soldados romanos junto ao sepulcro de
Cristo.
O próprio Festo apresentou Paulo à assembléia com estas pala-
vras: “Rei Agripa, e todos os varões que estais presentes conosco;
aqui vedes um homem de quem toda a multidão dos judeus me
tem falado, tanto em Jerusalém como aqui, clamando que não con-
vém que viva mais. Mas, achando eu que nenhuma coisa digna de
morte fizera, e apelando ele mesmo também para Augusto, tenho
determinado enviar-lho. Do qual não tenho coisa alguma certa que
escreva ao meu senhor, e por isso perante vós o trouxe, principal-
mente perante ti, ó rei Agripa, para que, depois de interrogado, tenha
alguma coisa que escrever. Porque me parece contra a razão en-
viar um preso, e não notificar contra ele as acusações”.
Atos dos
Apóstolos 25:24-27
.
O rei Agripa deu, então, a Paulo a liberdade de falar. O apóstolo
não estava desconcertado pela brilhante pompa ou elevada posição
de seu auditório; pois sabia de quão pouco valor representam ri-
queza ou posição mundanas. Poder e pompa terrestres não poderiam
nem por um momento abater-lhe o ânimo ou roubar-lhe o domínio
próprio.
“Tenho-me por venturoso, ó rei Agripa”, disse ele, “de que pe-
rante ti me haja hoje de defender de todas as coisas de que sou
acusado pelos judeus; mormente sabendo eu que tens conhecimento
de todos os costumes e questões que há entre os judeus; pelo que te
rogo que me ouças com paciência”.
Atos dos Apóstolos 26:2, 3
.
Capítulo 45 — Carta de Roma
Este capítulo é baseado sobre as
Colossences
e
Filipenses
.
Ao apóstolo Paulo, cedo em sua experiência cristã, foram dadas
especiais oportunidades de conhecer a vontade de Deus concernente
aos seguidores de Jesus. Ele “foi arrebatado até ao terceiro Céu”, “ao
paraíso; e ouviu palavras inefáveis, de que ao homem não é lícito
falar” Ele próprio reconheceu que lhe tinham sido dadas muitas
“visões e revelações do Senhor” Sua compreensão dos princípios da
verdade do evangelho era igual à dos “mais excelentes apóstolos”.
2 Coríntios 12:2, 4, 1, 11
. Ele tinha clara e plena compreensão da
“largura, e o comprimento e a altura, e a profundidade” do “amor de
Cristo, que excede todo o entendimento”.
Efésios 3:18, 19
.
Paulo não podia falar de tudo o que tinha visto em visão; pois
entre seus ouvintes havia alguns que teriam interpretado mal suas
palavras. Mas o que lhe fora revelado capacitou-o a trabalhar como
líder e sábio mestre, e também a moldar as mensagens que, em seus
últimos anos, enviou às igrejas. A impressão que recebeu quando
em visão, ficou para sempre com ele, capacitando-o a dar uma re-
presentação correta do caráter cristão. De viva voz e por carta ele
apresentou uma mensagem que, desde então, tem levado auxílio e
força à igreja de Deus. Aos crentes de hoje essa mensagem fala cla-
ramente dos perigos que ameaçarão a igreja, e das falsas doutrinas
que ela terá de enfrentar.
O desejo do apóstolo àqueles a quem enviava suas cartas de
conselho e admoestação era que não mais fossem “meninos incons-
tantes, levados em roda por todo o vento de doutrina”; mas para que
viessem “à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a
varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo” Aconse-
lhava aos que eram seguidores de Jesus em comunidades pagãs, a
não andarem como andavam “também os outros gentios, na vaidade
do seu sentido, entenebrecidos no entendimento, separados da vida
de Deus [...] pela dureza do seu coração” (
Efésios 4:14, 13, 17, 18
),
330
Carta de Roma
331
mas “como sábios, remindo o tempo; porquanto os dias são maus”.
Efésios 5:15, 16
. Animava os crentes a olharem ao tempo em que
Cristo, o qual “amou a igreja, e a Si mesmo Se entregou por ela”, ha-
veria de a “apresentar a Si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem
ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível”.
Efésios
5:25, 27
.
Essas mensagens, escritas não com o poder do homem mas
de Deus, contêm lições que devem ser estudadas por todos, e que
podem, com proveito, ser muitas vezes repetidas. Nelas é esboçada
[264]
a piedade prática, são assentados princípios que devem ser seguidos
em todas as igrejas, e é esclarecido o caminho que leva à vida eterna.
Em sua carta “aos santos e irmãos fiéis em Cristo, que [esta-
vam] em Colossos”, escrita enquanto prisioneiro em Roma, Paulo
fez menção de sua alegria pela firmeza deles na fé, novas que lhe
haviam sido levadas por Epafras, “o qual”, escreveu o apóstolo, “nos
declarou também a vossa caridade no Espírito. Por essa razão”, con-
tinuou, “nós também, desde o dia em que o ouvimos, não cessamos
de orar por vós, e de pedir que sejais cheios do conhecimento da
Sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual; para que
possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-Lhe em tudo,
frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de
Deus; corroborados em toda a fortaleza, segundo a força da Sua gló-
ria, em toda a paciência, e longanimidade com gozo”.
Colossences
1:2-11
.
Assim Paulo exprimiu em palavras seu desejo para com os cren-
tes colossenses. Quão elevado é o ideal que essas palavras apresen-
tam ao seguidor de Cristo! Elas mostram as maravilhosas possibili-
dades da vida cristã, e tornam claro que não há limite para as bênçãos
que os filhos de Deus podem receber. Crescendo constantemente no
conhecimento de Deus, podem eles ir de força em força, de altura
em altura na experiência cristã até que, pela “força da Sua glória”,
sejam feitos “idôneos para participar da herança dos santos na luz”.
Colossences 1:12
.
O apóstolo exaltou a Cristo perante seus irmãos como Aquele
por quem Deus criara todas as coisas, e por quem tinha promovido
a redenção. Ele declarou que a mão que sustém os mundos no es-
paço, e mantém na ordem perfeita e incansável atividade todas as
coisas através do Universo de Deus, é a mão que foi pregada na cruz
332
Atos dos Apóstolos
por eles. “NEle foram criadas todas as coisas que há nos céus e na
Terra”, escreveu Paulo, “visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam
dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado
por Ele e para Ele. E Ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas
subsistem por Ele”.
Colossences 1:16, 17
. “A vós também, que nou-
tro tempo éreis estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas
obras más, agora contudo vos reconciliou no corpo da Sua carne,
pela morte, para perante Ele vos apresentar santos, e irrepreensíveis,
e inculpáveis”.
Colossences 1:21, 22
.
O Filho de Deus Se rebaixou para levantar os caídos. Para isso,
deixou Ele os mundos sem pecado, as noventa e nove que O amavam,
e veio à Terra para ser “ferido pelas nossas transgressões, e moído
pelas nossas iniqüidades”.
Isaías 53:5
. Em tudo foi feito semelhante
aos irmãos. Tornou-Se carne, exatamente como nós somos. Ele
soube o que significa ter fome, sede e cansaço. Foi sustentado pelo
alimento e restaurado pelo sono. Foi estrangeiro e peregrino na Terra
— estava no mundo mas não era do mundo; foi tentado e provado
como o são os homens e mulheres de hoje, vivendo, contudo, uma
[265]
vida sem pecado. Compassivo, compreensivo e terno, sempre gentil
para com os outros, Ele representava o caráter de Deus. “O Verbo Se
fez carne, e habitou entre nós... cheio de graça e de verdade”.
João
1:14
.
Cercados pelas práticas e influências do paganismo, os crentes
colossenses estavam em perigo de ser afastados da simplicidade do
evangelho, e Paulo, para adverti-los contra isso, apontou-lhes a Cristo
como o único Guia seguro. “Porque quero que saibais”, escreveu
ele, “quão grande combate tenho por vós, e pelos que estão em
Laodicéia, e por quantos não viram o meu rosto em carne; para que
os seus corações sejam consolados, e estejam unidos em caridade,
e enriquecidos da plenitude da inteligência, para conhecimento do
mistério de Deus — Cristo, em quem estão escondidos todos os
tesouros da sabedoria e da ciência.
“E digo isto para que ninguém vos engane com palavras persua-
sivas. Como, pois, recebestes o Senhor Jesus Cristo, assim também
andai nEle, arraigados e edificados nEle e confirmados na fé, assim
como fostes ensinados, crescendo em ação de graças. Tendo cuidado
para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs
sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos
Capítulo 52 — Firme até o fim
Este capítulo é baseado na
Epístola Segunda Epístolas de Pedro
.
Na segunda carta enviada por Pedro aos que com ele haviam
alcançado “fé igualmente preciosa”, o apóstolo expôs o plano divino
para desenvolvimento do caráter cristão. Escreveu: “Graça e paz
vos sejam multiplicadas, pelo conhecimento de Deus, e de Jesus
nosso Senhor; visto como o Seu divino poder nos deu tudo o que
diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento dAquele que nos
chamou por Sua glória e virtude; pelas quais Ele nos tem dado
grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis par-
ticipantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que
pela concupiscência há no mundo.”
“E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai
à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência, e à ciência temperança,
e à temperança paciência, e à paciência piedade, e à piedade amor
fraternal; e ao amor fraternal caridade. Porque, se em vós houver e
abundarem estas coisas, não vos deixarão ociosos nem estéreis no
conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo”.
2 Pedro 1:1-8
.
Essas palavras são plenas de instrução e tratam do que é fun-
damental. O apóstolo apresenta perante os crentes a escada do pro-
gresso cristão, cujos degraus representam cada qual um acréscimo
no conhecimento de Deus e em cuja ascensão não deve haver parada.
Fé, virtude, ciência, temperança, paciência, piedade, amor fraternal
e caridade são os degraus da escada. Permanecemos salvos ao subir
degrau a degrau, passo após passo, para o alto ideal de Cristo para
nós. Assim é Ele feito para nós sabedoria, e justiça, e santificação e
redenção.
Deus tem chamado Seu povo para glória e virtude, e isso deve
manifestar-se na vida de todo o que verdadeiramente se associa
a Ele. Havendo-se tornado participantes do dom celestial, devem
prosseguir para a perfeição, “guardados na virtude de Deus para
a salvação”.
1 Pedro 1:5
. Para Deus, a glória é conceder Ele Sua
372
Firme até o fim
373
virtude a Seus filhos. Ele deseja ver homens e mulheres alcançarem
a mais elevada norma; e quando pela fé se apegarem ao poder de
Cristo, quando pleitearem Suas infalíveis promessas, considerando-
as como suas, quando com persistência buscarem o poder do Espírito
Santo que lhes não será negado, então se farão completos nEle.
Tendo recebido a fé do evangelho, o trabalho seguinte do crente
é acrescentar virtude a seu caráter, e assim purificar o coração e
preparar a mente para a recepção do conhecimento de Deus. Esse
conhecimento é a base de toda educação e serviço verdadeiros. É
[298]
a única salvaguarda real contra a tentação; e essa é a única coisa
que pode tornar alguém semelhante a Deus no caráter. Mediante o
conhecimento de Deus e de Seu Filho Jesus Cristo, é dado ao crente
“tudo o que diz respeito à vida e piedade”.
2 Pedro 1:3
. Nenhuma
boa dádiva é retida daquele que sinceramente deseja obter a justiça
de Deus.
“E a vida eterna é esta”, disse Jesus, “que Te conheçam, a Ti
só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste”.
João 17:3
. E o profeta Jeremias declarou: “Não se glorie o sábio na
sua sabedoria; nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o
rico nas suas riquezas; mas o que se gloriar glorie-se nisto: em Me
conhecer e saber que Eu sou o Senhor, que faço beneficência, juízo
e justiça na Terra; porque destas coisas Me agrado, diz o Senhor”.
Jeremias 9:23, 24
. Apenas de maneira vaga pode a mente humana
compreender a largura e a profundidade e a altura das realizações
espirituais de quem alcança esse conhecimento.
Ninguém precisa deixar de alcançar em sua esfera a perfeição
do caráter cristão. Pelo sacrifício de Cristo, foi tomada providência
para que o crente receba todas as coisas que dizem respeito à vida
e piedade. Deus nos convida a alcançarmos a norma da perfeição,
e põe diante de nós o exemplo do caráter de Cristo. O Salvador
mostrou, por meio de Sua humanidade consumada por uma vida de
constante resistência ao mal, que, com a cooperação da Divindade,
podem os seres humanos alcançar nesta vida a perfeição de caráter.
Essa é a certeza que Deus nos dá de que também nós podemos
alcançar a vitória completa.
Perante o crente é apresentada a maravilhosa possibilidade de ser
semelhante a Cristo, obediente a todos os princípios da lei. Mas por si
mesmo é o homem absolutamente incapaz de alcançar essa condição.
374
Atos dos Apóstolos
A santidade que a Palavra de Deus declara dever ele possuir antes
que possa ser salvo, é o resultado da operação da divina graça,
ao submeter-se à disciplina e restritoras influências do Espírito de
verdade. A obediência do homem só pode ser aperfeiçoada pelo
incenso da justiça de Cristo, o qual enche com a divina fragrância
cada ato de obediência. A parte do cristão é perseverar em vencer
cada falta. Constantemente deve orar para que o Salvador sare os
distúrbios de sua vida enferma pelo pecado. Ele não tem a sabedoria
nem a força para vencer; isso pertence ao Senhor, e Ele as outorga a
todos os que em humildade e contrição dEle buscam auxílio.
A obra de transformação da impiedade para a santidade é con-
tínua. Dia a dia, Deus atua para a santificação do ser humano, e o
homem deve cooperar com Ele, desenvolvendo perseverantes es-
forços para o cultivo de hábitos corretos. Deve acrescentar graça à
graça; e assim procedendo num plano de adição, Deus atua por ele
num plano de multiplicação. Nosso Salvador está sempre pronto a
ouvir e responder à oração do coração contrito, e graça e paz são
multiplicadas a Seus fiéis seguidores. Alegremente lhes concede
[299]
as bênçãos de que necessitam em sua luta contra os males que os
cercam.
Há os que querem subir a escada do progresso cristão mas, ao
avançarem, começam a pôr a confiança na capacidade humana, e
logo perdem de vista Jesus, Autor e Consumador de sua fé. O resul-
tado é fracasso e perda de tudo o que foi ganho. Verdadeiramente
lamentável é a condição dos que, perdendo-se no caminho, permi-
tem que o inimigo lhes roube as graças cristãs que lhes estiveram
em desenvolvimento no coração e na vida. “Aquele em quem não
há estas coisas”, declara o apóstolo, “é cego, nada vendo ao longe,
havendo-se esquecido da purificação de seus antigos pecados”.
2
Pedro 1:9
.
O apóstolo Pedro tivera longa experiência nas coisas de Deus.
Sua fé no poder de Deus para salvar se fortalecera com os anos, até
alcançar a prova suficiente de que não há possibilidade de fracasso
para aquele que, avançando pela fé, sobe degrau a degrau, sempre
para cima e para a frente, em direção ao último degrau da escada
que alcança os próprios portais do Céu.
Por muitos anos, estivera Pedro insistindo com os crentes sobre
a necessidade do crescimento constante na graça e no conhecimento
Firme até o fim
375
da verdade e então, sabendo que logo deveria ser levado a sofrer mar-
tírio por sua fé, uma vez mais chamou a atenção para os preciosos
privilégios que estão ao alcance de todo crente. Com ampla certeza
de fé, o idoso discípulo exortou os irmãos à firmeza de propósito
na vida cristã. “Procurai”, suplica-lhes, “fazer cada vez mais firme
a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tro-
peçareis. Porque assim vos será amplamente concedida entrada no
reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”.
2 Pedro 1:10,
11
. Preciosa garantia! Gloriosa é a esperança oferecida ao crente, ao
avançar ele pela fé em direção às alturas da perfeição cristã!
“Pelo que”, continuou o apóstolo, “não deixarei de exortar-vos
sempre acerca destas coisas ainda que bem as saibais, e estejais
confirmados na presente verdade. E tenho por justo, enquanto estiver
neste tabernáculo, despertar-vos com admoestações: Sabendo que
brevemente hei de deixar este meu tabernáculo, como também nosso
Senhor Jesus Cristo já mo tem revelado. Mas também eu procurarei
em toda a ocasião que depois da minha morte tenhais lembrança
destas coisas”.
2 Pedro 1:12-15
.
O apóstolo estava bem qualificado para falar dos propósitos de
Deus com respeito à raça humana; pois durante o ministério terrestre
de Cristo ele vira e ouvira muito do que pertencia ao reino de Deus.
“Porque não vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso
Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas engenhosamente inventadas,”
recordava ele aos crentes, “mas nós mesmos fomos testemunhas
oculares da Sua majestade, pois Ele recebeu, da parte de Deus Pai,
honra e glória, quando pela glória excelsa Lhe foi enviada a seguinte
voz: Este é o Meu Filho amado, em quem Me comprazo. Ora, esta
voz vinda do Céu, nós a ouvimos quando estávamos com Ele no
monte santo”.
2 Pedro 1:16-18
.
[300]
No entanto, por convincente que fosse essa prova da certeza da
esperança dos crentes, havia contudo outra evidência ainda mais
convincente no testemunho da profecia, através do qual a fé de
todos pode ser confirmada e ancorada com segurança. “E temos, mui
firme, a palavra dos profetas”, declarou Pedro “à qual bem fazeis
em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até
que o dia esclareça, e a estrela da alva apareça em vossos corações.
Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de
particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por
410
Atos dos Apóstolos
Os nomes das sete igrejas são símbolos da igreja em diferentes
períodos da era cristã. O número sete indica plenitude, e simboliza o
fato de que as mensagens se estendem até o fim do tempo, enquanto
os símbolos usados revelam o estado da igreja nos diversos períodos
da história do mundo.
É dito de Cristo que andava no meio dos castiçais de ouro. As-
sim é simbolizada a Sua relação para com as igrejas. Ele está em
constante comunicação com Seu povo. Conhece seu verdadeiro es-
tado. Observa-lhe a ordem, piedade e devoção. Embora seja Sumo
Sacerdote e Mediador no santuário celestial, é apresentado andando
de um para outro lado entre as Suas igrejas terrestres. Com infati-
gável desvelo e ininterrupta vigilância, observa para ver se a luz de
qualquer de Suas sentinelas está bruxuleando ou se extinguindo. Se
os castiçais fossem deixados ao cuidado meramente humano, sua
trêmula chama enlanguesceria e morreria; mas Ele é o verdadeiro
vigia da casa do Senhor, o verdadeiro guarda dos átrios do templo.
Seu assíduo cuidado e graça mantenedora são a fonte de vida e luz.
Cristo é representado como tendo sete estrelas em Sua mão
direita. Isso nos assegura que nenhuma igreja fiel a seu encargo
necessita temer o fracasso; pois nenhuma estrela que tem a proteção
do Onipotente pode ser arrebatada da mão de Cristo.
“Isto diz Aquele que tem na Sua destra as sete estrelas”.
Apo-
calipse 2:1
. Essas palavras são ditas aos que ensinam na igreja —
aqueles a quem Deus confiou pesadas responsabilidades. As suaves
influências que devem existir na igreja têm muito que ver com os
ministros de Deus, os quais devem revelar o amor de Cristo. As
estrelas do céu estão sob o Seu controle. Ele as ilumina com Sua
luz. Guia-as e dirige os seus movimentos. Se Ele não fizesse isso
tornar-se-iam estrelas caídas. Assim é com Seus ministros. Eles são
apenas instrumentos em Suas mãos, e todo o bem que realizam é
feito por meio de Seu poder. Através deles deve a Sua luz brilhar. O
Salvador deve ser a sua eficiência. Se olharem para Ele como Ele
olhava para o Pai, serão habilitados a fazer a Sua obra. Ao fazer de
Deus o Seu apoio, Ele lhes dará Seu resplendor para o refletirem
sobre o mundo.
Cedo na história da igreja, o mistério da iniqüidade predito pelo
apóstolo Paulo iniciou sua calamitosa obra; e quando os falsos
ensinadores, a cujo respeito Pedro advertiu os crentes, exibiram suas
O Apocalipse
411
heresias, muitos foram seduzidos pelas falsas doutrinas. Alguns
tropeçaram sob as provas e foram tentados a abandonar a fé. Ao
tempo em que foi dada essa revelação a João, muitos haviam perdido
seu primeiro amor da verdade evangélica. Mas em Sua misericórdia
Deus não permitiu que a igreja continuasse em estado de apostasia.
Numa mensagem de infinita ternura Ele revelou Seu amor por eles, e
Seu desejo de que fizessem segura obra para a eternidade. “Lembra-
[328]
te pois donde caíste”, apelou, “e arrepende-te, e pratica as primeiras
obras”.
Apocalipse 2:5
.
A igreja era defeituosa, e necessitava de severa reprovação e ad-
vertência; e João foi inspirado a registrar mensagens de advertência
e reprovação e a apelar aos que, tendo perdido de vista os princípios
fundamentais do evangelho, estavam pondo em perigo sua esperança
de salvação. Mas as palavras de repreensão que Deus acha necessá-
rio enviar são ditas sempre em cativante amor, e com a promessa de
paz a cada crente contrito. “Eis que estou à porta, e bato”, declara o
Senhor; “se alguém ouvir a Minha voz, e abrir a porta, entrarei em
sua casa, e com ele cearei, e ele comigo”.
Apocalipse 3:20
.
E aos que em meio ao conflito mantivessem sua fé em Deus,
foram dadas ao profeta as palavras de louvor e promessa: “Eu sei
as tuas obras; eis que diante de ti pus uma porta aberta, e ninguém
a pode fechar; tendo pouca força, guardaste a Minha palavra, e
não negaste o Meu nome. [...] Como guardaste a palavra da Minha
paciência, também Eu te guardarei da hora da tentação que há de
vir sobre todo o mundo, para tentar os que habitam na Terra” Os
crentes foram admoestados: “Sê vigilante, e confirma os restantes,
que estavam para morrer” “Eis que venho sem demora; guarda o que
tens, para que ninguém tome a tua coroa”.
Apocalipse 3:8, 10, 2, 11
.
Foi por intermédio de alguém que se declarava “irmão, e compa-
nheiro na aflição” (
Apocalipse 1:9
), que Cristo revelou a Sua igreja
o que ela devia sofrer por Seu amor. Olhando através dos longos
séculos de trevas e superstições, o exilado encanecido viu multidões
sofrendo o martírio por causa de seu amor pela verdade. Mas viu
também que Aquele que sustinha Suas primeiras testemunhas não
abandonaria Seus fiéis seguidores durante os séculos de perseguição
por que deviam passar antes do fim dos tempos. “Nada temas das
coisas que hás de padecer”, declarou o Senhor. “Eis que o diabo
lançará alguns de vós na prisão, para que sejais tentados; e tereis
A igreja triunfante
421
trono, e ao Cordeiro, sejam dadas ações de graças, e honra, e glória,
e poder para todo o sempre”.
Apocalipse 5:12, 13
.
Lá, os remidos saúdam os que os conduziram ao Salvador, e
todos se unem no louvor Àquele que morreu para que os seres
humanos pudessem ter a vida que se mede com a vida de Deus.
O conflito está terminado. As tribulações e lutas chegaram ao fim.
Cânticos de vitória enchem todo o Céu, enquanto os remidos entoam
o jubiloso coro: “Digno é o Cordeiro, que foi morto” (
Apocalipse
5:12
), e vive outra vez, como triunfante vencedor.
[336]
“Depois destas coisas, olhei, e eis aqui uma multidão, a qual
ninguém podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas,
que estavam diante do trono e perante o Cordeiro, trajando vestes
brancas e com palmas nas suas mãos; e clamavam com grande voz,
dizendo: Salvação ao nosso Deus, que está assentado no trono, e ao
Cordeiro”.
Apocalipse 7:9, 10
.
“Estes são os que vieram de grande tribulação, e lavaram os seus
vestidos e os branquearam no sangue do Cordeiro. Por isso estão
diante do trono de Deus, e O servem de dia e de noite no Seu templo;
e Aquele que está assentado sobre o trono os cobrirá com a Sua
sombra. Nunca mais terão fome, nunca mais terão sede; nem sol nem
calma alguma cairá sobre eles. Porque o Cordeiro que está no meio
do trono os apascentará, e lhes servirá de guia para a fontes das águas
da vida; e Deus limpará de seus olhos toda a lágrima”.
Apocalipse
7:14-17
. “E não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem
dor; porque já as primeiras coisas são passadas”.
Apocalipse 21:4

.

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